Pesquisar este blog

terça-feira, 29 de julho de 2014

Super Heróis Brasileiros


Achei melhor colocar uma mulher pelada antes que resolvam me censur... digo, me proibir na publicidade.



A Tempestade aparece bastante por aqui, não? Será que o pessoal a reconhece nessas roupas? Essa é a Tempestade da época que eu colecionava X-Men.

Taí um tema que não me atrai em quadrinhos nacionais: super heróis brasileiros. Eu não sei, mas acho que a experiência de sonhar com superpoderes é uma coisa que surge mais no imaginário coletivo de uma população que não apenas carece de preocupações verdadeiras, mas também que se sente no centro do universo e enxerga a si mesmo como superior.

Veja o caso dos deuses gregos. Poucas mitologias são tão ricas e lembradas. Sim, é verdade que o politeísmo não é seu privilégio, mas a quantidade de histórias, lendas, fábulas, mitos, monstros e heróis sobre-humanos que sobreviveram ao tempo que vêm de lá é massiva, e não à toa. A sociedade grega, especialmente a ateniense, viveu muitos anos de prosperidade tranquila, onde o trabalho era realizado pela casta inferior de escravos, o que deixava os helenos com muito tempo livre pra pensar. É nestes tempos, quando as pessoas vivem a fartura despreocupada, é que floresce este tipo de história. A arte que brota em tempos de guerra, desespero e necessidade costuma ser muito mais visceral e bem menos parnasiana.


Não que isso seja impeditivo de que surjam boas histórias de super heróis no Brasil. Sendo um país de discrepância socioeconômica tão abismal, é seguro assumir que uma boa parte da população brasileira vive como viviam aqueles atenienses. Talvez tenham um pouco mais de medo do crime, mas ainda assim, nada que se compare à vida de um pescador de mangue ou morador de rua. Eu mesmo posso dizer que minha vida está mais próxima disto do que dos últimos casos, embora minhas origens remontem a tempos bem mais difíceis. Mas, até por isso, tenho a sensação, talvez causada por uma espécie de "culpa pela prosperidade" enraizada, que escrever sobre gente voando por aí e lutando contra o devorador de sol soaria superficial e alienado nesta realidade.

Tem gente sendo presa violenta e injustamente na porta da minha casa; gente sendo linchada sem ter feito nada, culpados sem sequer chance de se provar inocente; gente morando embaixo da marquise perto do trabalho; gente morrendo em filas de hospitais pra sustentar uma elite política sociopata; etc. Por demagogia e lugar-comum que esteja se tornando falar dos problemas do país, do nosso complexo de vira-latas à nossa corrupção crônica, ainda parecem melhores assuntos que os problemas pessoais do Superman. E mesmo aquelas histórias que não levam nada disso em conta - que não falem de miséria, de crime, de favela nem de sertão - mesmo estas eu prefiro que tenham um pé mais no chão. Histórias como Eu Matei Libório, por exemplo, ou Oeste Sangrento, ou Terapia, ou Nanquim Descartável, ou as desventuras amorosas do Valente. Estas histórias me falam mais ao coração que um cara voando, levantando trens e não demolindo Brasília.

Eu peço desculpas mesmo pelo coxismo (subst masc.: qualidade de coxinha) disso tudo. Eu tenho noção falar estas coisas faz de mim um hipócrita folgado que passa o tempo livre fazendo tirinhas bobas, cagando regra na internet e estudando na universidade mais alienada do país ao invés de fazer trabalho voluntário ou caridade real. Mas não muda o que sinto a respeito deste gênero.


Preciso também fazer outro adendo: ainda que desconsiderássemos todas estas "questões sociais", fantasia de super herói é um gênero mais desbastado que tampinha de caneta Bic de uma pessoa ansiosa. Veja, eu gosto de super heróis. De verdade! Adoro ver um filme ou ler uma história legal sobre heroísmo e aventura. Mas mesmo as empresas donas dos supers originais estão ralando pra tentar adicionar um sopro de novidade e originalidade a suas histórias. Não é fácil. E tome-lhe reboots, remakes, novas versões (sobre as quais comentamos na tira anterior) e outras porcarias que mais chocam que agradam; isto mantém temporariamente o interesse. Assim, os estúdios vão pulando de "grande novidade" em "grande novidade", disfarçando como podem o praticamente inevitável mais do mesmo.

E sei lá. Não é algo a que aspiro.

4 comentários:

  1. Concordo com o que você disse acima, mas tenho algumas considerações. A questão dos supers também pode ser considerado como algum tipo de fuga ou distração. Muitas pessoas procuram escapes justamente por não querer pensar ou agir frente determinadas situações. Em relação aos quadrinhos de temas "reais", também concordo, são mais interessantes, seja por uma temática diferente ou mesmo pela falta de ideias novas no mundo "mainstream" (está na moda termos em inglês, apesar de ser uma tremenda babaquice), aliás, depois dê uma olhada em "A arte de voar", muito boa a HQ. E por fim um questionamento, já pensou em fazer uma quadrinho (gibi para os menos frescos) em um diferente formato?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Doutor Douglas! Prazer inenarrável ter sua participação neste humilde blog!

      Então, eu não quis falar mal do gênero como um todo. Até fiz questão de frisar que eu gosto de quadrinhos de super heróis. E sim, eu entendo que é uma experiência de entretenimento e catarse.

      Também não condeno quem quer fazer isso. Imitação é o primeiro passo da criatividade. Apenas não curto muito a ideia porque, se já acho difícil aparecer algo original e interessante com este tema lá, onde se produz trocentas produções neste gênero, acho ainda mais complicado que surja aqui, onde não há qualquer tradição; apenas a influência massiva de praticamente duas dentre os montes de fontes de quadrinhos heróicos que há lá fora.

      Vou procurar este quadrinho.

      Quanto ao formato diferente... é complicado, pois eu ainda não produzi nada nem em formato comum. Estou tentando viabilizar algumas histórias curtas que fiz, ainda em formato de página normal. Mais ou menos assim: aprendendo a andar antes de correr, pra só depois voar.

      Abração!

      Excluir
    2. Você acaba de ganhar muitos pontos com a minha pessoa, pois se tornou o segundo a considerar meu título acadêmico. A primeira pessoa a fazer isso foi o flanelinha que fica em frente a Padaria Estrela, aqui em Franca, "Ô Doutor, posso guardar o seu carro?", confesso que até dei uma grana a mais para ele naquele dia.

      Em relação ao tema, não se trata de uma defesa dos heróis, gênero que eu leio somente quando tenho certeza que se trata de algo bom, ou seja, republicações de clássicos, e olhe lá. Trata-se apenas de um comentário sobre as várias formas de se consumir um mesmo produto. Para que não fique aquela visão intelectualóide de que "sou maduro e não leio mais o Bátemã". Mas gostei muito do post.

      Aliás, outra dúvida, li a lei sobre a questão da propaganda infantil, e alguns comentaristas. Alguns tem uma visão apocalíptica e outros consideram que não é boa, mas há as brechas que permitem a sobrevivência de determinados tipos de anúncios. Em outras palavras, como em muitas outras leis não foi tão bem redigido. Então, como sou leigo, pergunto: quais as implicações práticas da lei de fato?

      Enfim, se for em Itaú manda recado e quando chegar minha revista quero autógrafo.

      Mensagem edificante: "Em terra de Saci, qualquer chute é voadora!"

      Excluir
  2. Opa, como vou deixar pra lá um título tão importante? Não, não, pra mim, aqui no blog ou na vida, você é o Doutor Mussarela! Vai ter até tirinha sobre isso algum dia (é que demora pra uma ideia virar tira).

    Sobre essa conversa da publicidade infantil, tenho lido muita coisa. Artistas, defensores da medida e consultores jurídicos. Minha opinião pessoal é que sou contra. E, aparentemente, parece que tenho um certo amparo da lei nisso.

    São duas coisas separadas: uma é a resolução 163 do Conanda, órgão que cuida do direito da criança e do adolescente, praticamente proibindo toda e qualquer publicidade voltada à criança; outra é um projeto de lei em tramitação desde 2001. A celeuma é por causa da resolução, sobre o PL eu li quase nada.

    Os problemas previstas com esta resolução seriam três:

    1- não é permitida QUALQUER publicidade de produtos infantis. Teoricamente, você poderia anunciar brinquedos, videogames, shows infantis, etc, desde que o comercial tenha como público-alvo os pais, mas é complicado definir como fazer reclame de produto infantil não ser classificado como infantil. Seria só lascar um aviso: "Este comercial é voltado para adultos"? O texto não deixa muita brecha, pois proíbe praticamente tudo que é elemento que possa ser considerado infantil: animação, bonecos, crianças, representação de crianças e mais uma porrada de coisas. Se o aviso resolver, então a medida é completamente inefetiva e inútil: basta colocar o aviso em tudo e pronto. Se não resolver, ela inviabiliza comercial de lápis de cor, por exemplo. Só seria possível fazer algo como aqueles comerciais da Polishop ou da Tecpix, em que aparece alguém oferecendo o produto e falando sobre ele. O efeito, lógico, seria um vácuo no mercado de produtos infantis. Algo que, desconfio, algum contato no governo pretenderia preencher com iniciativas públicas de cunho "cultural" - leia-se, pegar dinheiro público e ainda fazer umas peças infantis de merda.

    2 – não é permitido o uso de personagens infantis em peças publicitárias. Este efeito destrói grande parte das possibilidades de licenciamento, que é a maior fonte de renda de produtores de quadrinhos. Tecnicamente, não teria problema em aparecer a Mônica em propaganda de fralda, por exemplo, uma vez que o produto é destinado aos pais – embora seja de uso da criança. Mas não poderiam aparecer mais em embalagem de produtos que por ventura pudessem ser comprados por crianças. Se levado à risca, nem em capa de gibi poderiam aparecer, mas acho que não é o caso aqui. Mesmo assim, não poderiam aparecer num chocolate, por exemplo, ou mesmo nas famigeradas maçãs da Turma da Mônica. Há bastante espaço pra abuso aqui, uma vez que nem todo produto é obviamente voltado para um ou outro público.

    3 – a resolução não define de forma clara o que é infantil. Ela coloca tudo – animação, desenho, cartum, bonecos, tudo no mesmo saco. É aqui que o bicho pega pra quadrinistas, porque o público em geral tem a ideia de que quadrinhos significam automaticamente produto infantil. Nos EUA tiveram até casos de queima de quadrinhos (nos anos 60, é verdade, mas ainda assim) por causa de capas de gibis que continham zumbis, monstros e crimes. Claro que não adiantou muito explicar que AQUELES gibis não eram pra crianças. E o medo é que isso venha a acontecer aqui. De repente o cara lança um gibi adulto de crime ou erótico, mas não pode desenhar nada na capa por conta da interpretação a que isso poderá levar.

    Aparentemente, no entanto, o Conanda extrapolou sua capacidade normativa por esta medida, e o pessoal está tomando as devidas providências jurídicas a respeito.

    ResponderExcluir

Comente! Invente! Faça o Fex mais contente!