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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Dear Mr. Watterson

Estava assistindo ao documentário Dear Mr. Watterson. Estava até indo bem, mas tropeçou no finzinho, quando um monte de famosos cartunistas "old school" lamuriaram como a lenta agonia dos jornais e a internet pulverizaram a experiência de ler as tirinhas. Acabaram por concluir que Calvin & Haroldo serão os últimos personagens a impactarem o mundo dos quadrinhos, pois agora são tantas as personagens que a atenção ficará necessariamente dispersa.

Deu um misto de tristeza e alívio. Tristeza por perceber que pessoas supostamente geniais podem ser idiotas no que se refere à autoanálise; alívio por serem assim como eu, mundanos.


Eu acredito fortemente na internet. Acredito na popularização dos meios artísticos. Conheço vários trabalhos de várias pessoas que influenciaram a minha vida, minha maneira de pensar, minha maneira de ver o mundo. Artistas realmente talentosos, que não apenas conseguem fazer algo bom ou algo próprio, mas algo excepcional e ao mesmo tempo pessoal. Artistas na verdadeira acepção da palavra, que usa um meio que mostra aos seus sentidos para falar àquilo que está além deles. Só de pensar no quão poucos deles eu conheceria hoje, eu sinto pena dos coitados que viveram antes deste meio fenomenal.

Claro que os argumentos deles são válidos. Claro que a popularização dos meios de produção levou a um imenso, quase inavegável, oceano de porcaria. Sim, 99% do conteúdo produzido pra internet é ruim ou péssimo. Verdade. A diferença, no entanto, é que fica completamente ao meu critério selecionar e classificar o conteúdo. Não tem nenhum editor, dono de gravadora nem sei-lá-quem para me impor seu próprio conceito de bom, me dizer "esse artista é bom, leva pra casa". Não, eu escuto, leio e assisto a quem eu quero, na hora que eu quero e quantas vezes eu quero.

Aliás, é por isso que fico boiando quando as pessoas perdem tempo reclamando do Facebook, do You Tube ou da própria internet. Pombas, você escolhe sua programação, como bolinhos ela pode ser ruim?? Na minha linha do tempo, por exemplo, só aparece o que me interessa, porque quando começa a aparecer muita coisa de desinteressante, eu bloqueio as fontes. Simples, rápido, prático e mantém o bom humor. E, como recurso final: se o Facebook é tão ruim assim, é só apagar a desgraça da conta.

Acho que a maioria das pessoas não tem noção do quanto isso é um privilégio. Antes a gente dependia de a rádio tocar a música que a gente queria pra poder gravar num cassete, cheio de chiados e anúncios. Discos de vinil eram trambolhos gigantes e difíceis de armazenar numa casa comum, que riscavam e se enchiam de poeira, até que você cansava de ouvir "Numa folha qualquer eu desenh.*rzzzzt*Numa folha qualquer eu desenh*rzzzzt*.Numa folha qualquer eu desenh*rzzzt*."

Parafraseando Louis CK, todos nós deveríamos, toda vez que sentamos na frente do computador e abrimos o mundo numa tela de 15 polegadas, ficar como "Oh, meu Deus! Putz! Incrível!"

A pior parte disso é perceber cartunistas, uma classe profissional conhecida por DESAFIAR os status quo, sempre experimentando novas formas de expressar suas ideias e criticar humoristicamente os poderes estabelecidos, comportando-se como tal. Que os donos de gravadores amaldiçoem as próximas sete gerações dos inventores do mp3 e dos programas p2p, consigo entender. Donos de jornais e revistas desesperados porque não são mais os picas das galáxias das opiniões idem. Mas cartunistas? Ah, tenha santa paciência.

Quer saber? É bom que as ferramentas estejam agora disponíveis pra toscos intrometidos como eu. É bom que haja gente fazendo tirinhas de memes e fazendo eventos falsos no Facebook. É bom que haja tanta porcaria. É assim que nós viemos a ser. Muita porcaria selecionada, basicamente.

E rogo que, quando chegar a vez da internet ser substituída por uma coisa melhor, que eu tenha clareza e isenção pra enxergar os novos meios e, quiçá, ainda tenham sobrado uns neurônios pra eu aprender a pelo menos usá-los antes de morrer obsoleto.

Link para o vídeo do Louis CK parafraseado. O número começa aos 2:38 e a citação é aos 3:21.

P.S.: Quanto mais conheço do Sr. Watterson, mais admiro sua postura.

4 comentários:

  1. CLAP, CLAP, CLAP, CLAP!!!! (é para se entender palmas aqui, rs)
    É sempre muito bom quando você escreve.

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  2. Ser Quiabo tem dessas mazelas: não sei se você tá me zuando ou falando sério.

    Vou apostar na segunda opção. Valeu! rs

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  3. Alguns dias depois do meu post, esbarro numa entrevista do próprio Bill Watterson, cujo trecho tratando do assunto transcrevo e traduzo abaixo.

    Where do you think the comic strip fits in today’s culture?

    Personally, I like paper and ink better than glowing pixels, but to each his own. Obviously the role of comics is changing very fast. On the one hand, I don’t think comics have ever been more widely accepted or taken as seriously as they are now. On the other hand, the mass media is disintegrating, and audiences are atomizing. I suspect comics will have less widespread cultural impact and make a lot less money. I’m old enough to find all this unsettling, but the world moves on. All the new media will inevitably change the look, function, and maybe even the purpose of comics, but comics are vibrant and versatile, so I think they’ll continue to find relevance one way or another. But they definitely won’t be the same as what I grew up with.

    Onde você acha que a tira em quadrinhos se encaixa na cultura atual?

    Pessoalmente, prefiro papel e tinta a pixels brilhantes, mas cada um na sua. Obviamente o papel dos quadrinhos está mudando bem rápido. Por um lado, não acho que quadrinhos já tenham sido tão largamente aceitos ou levados a sério como agora. Por outro lado, a mídia de massas está se pulverizando e a audiência está se desintegrando. Suspeito que quadrinhos terão cada vez menos alcance e impacto cultural, e farão bem menos dinheiro. Já estou velho o suficiente pra considerar isso bem preocupante, mas o mundo segue. Toda mídia nova inevitavelmente mudará a aparência, a função e mesmo o propósito dos quadrinhos, mas quadrinhos são vibrantes e versáteis, então eu acho que eles continuarão a encontrar relevância de uma maneira ou de outra. Mas eles definitivamente não serão os mesmos com os quais eu cresci.

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