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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Rifa de Páscoa

Fazia bastante tempo que eu não escrevia um texto. Não é que eu não queira; os problemas são dois.

Primeiramente, o "processo criativo", digamos assim, de bolar uma crônica e uma tirinha são muito diferentes. Daí, quando me acontece algo eu tento montar de forma "quadrinística" (a exemplo da tirinha da Segunda), ao invés de contar o causo de forma mais prosaica.

A segunda razão é que não tenho lembrado mais de muitos "causos" curiosos o suficiente para que suscitem uma elaboração maior. Mas hoje, em virtude da proximidade da Páscoa, lembrei de um ocorrido na minha época da faculdade e resolvi dar um descanso para a tablet e exercitar um pouco o teclado.


Nesta época do ano sempre ressurgem aqueles debates acerca dos ovos de chocolate e seus preços exorbitantes. Ora, reclamar disso é como reclamar de usar branco no Reveillon, dar presente no Natal ou chorar de solidão no Dia dos Namorados. Não tem jeito. Vivemos em sociedade, e não é uma inteligente. O resultado é que não adianta usar a lógica individual. É vardomirice pagar cinco vezes o valor de uma mesma gramatura de chocolate, só porque vem num formato de ovo e embrulhado em papel de presente? É. Mas enquanto houver demanda, haverá mercado. Não assim fosse, não existiriam igrejas evangélicas cujo único objetivo é extrair dinheiro de fiéis desejosos de etéreas promessas. Mas, pelo lado bom, ao menos é uma vardomirice evitável. É só não comprar ovos de chocolate. Deixe-os pra quem tem menos amor ao bolso.

Em casa, pelo menos, dava certo. Quando criança, minha mãe dava-nos a opção: ovo de 200 g ou barra de chocolate de meio quilo? E a praticidade corre no sangue desde cedo: nunca ganhamos, nem eu nem minha irmã, ovo de chocolate. Aliás, foi graças a esta sacada da máder que eu descobri cedo um prazer que reservo-me até hoje, embora meu metabolismo não o permita de forma tão livre quanto na infância: congelar o chocolate puro e ficar roendo por longos minutos...                 

Algumas vardomirices, porém, embora igualmente evitáveis, ocorrem de forma mais localizada. Como já devo ter aludido em algum texto anterior, desde o primeiro ano da faculdade minha diligente turma montou uma comissão de formatura, da qual fui participante. E esta comissão era bastante ativa; sob muitos aspectos, funcionava de fato como uma empresa. E eficiente também: nossa formatura teve dois eventos com música ao vivo, sendo um deles com vinte convites para cada formando, e saiu a pouco mais de seiscentos reais. Nós pegávamos o dinheiro arrecadado mensalmente (vinte reais) e, através de eventos, festas, rifas, cervejadas, trucadas, etc., o multiplicávamos dentro das possibilidades do nosso limitado empreendedorismo. Deu certo, eu diria.

Assim, não foi surpresa quando, na Páscoa do segundo ano, resolvemos fazer uma rifa. O prêmio: duas cestas de Páscoa com bastante chocolate. Como de praxe, foi distribuído um número mínimo de rifas a serem vendidas, a cada um dos participantes da formatura (não apenas os membros da comissão). No caso, dez rifas a um real cada. Sopa no mel, certo?

Errado. Pelo menos no meu caso. Eu simplesmente não nasci pra ser vendedor. É por isso que eu fui pro setor público: não sei nem vender a mim mesmo na hora de pedir emprego. As duas únicas rifas que vendi na verdade não o fiz eu, apenas cedi meus números porque a Pietra conseguiu arranjar mais compradores do que tinha em rifas naquele momento.


Empolgados com o sucesso das vendas, os membros da comissão resolveram dar um estímulo ao pessoal da turma, com a seguinte ideia: quem conseguisse vender além dos dez reais mínimos teria este valor extra abatido de sua mensalidade. Fui contra, claro. Não preciso explicar que esta é uma ideia de jerico, certo? Afinal, raciocinemos: o objetivo da rifa era arrecadar dinheiro ALÉM do que conseguíamos com a mensalidade. Abatendo o que passasse do mínimo, estávamos simplesmente limitando a quantidade de dinheiro que viria. Um tamponamento monetário, por assim dizer. Vender rifas a mais não traria nenhuma vantagem ao saldo da comissão, só aumentaria o número de concorrentes.

Argumentei, mas fui voto vencido. Fazer o quê? Talvez tenham pensado que eu tinha interesse próprio na questão, já que era declaradamente péssimo em vendas. No dia do acerto das rifas, fiz a coisa mais lógica: já que ia ter mesmo que pagar os oito reais para comprar as rifas que não tinha vendido, e considerando que cada rifa extra era abatida nos vinte reais que teria que pagar de qualquer jeito, comprei vinte e oito números de rifa.

O resultado? Comi chocolate por uns seis meses à custa da vardomirice alheia.

1 comentários:

  1. Douglas Mussarela13 de abril de 2013 13:58

    Proximidade da páscoa: 12/04. Esse menino é o meu orgulho.

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