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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Três Dedos: Um Escândalo Animado



Bão? Depois da mais tradicional forma de cumprimentar relacionada a minha pessoa posso indicar mais um quadrinho “pouco comum”, por assim dizer. Aliás, cabe aqui uma breve análise sobre a ideia de “alternativo”, “pouco comum”, “fora das grandes editoras” ou mesmo “que não participam dos principais conglomerados econômicos”. Toda e qualquer definição como essa eu considero de uma idiotice tremenda, na verdade, tenho uma certa ojeriza de pessoas que se dizem alternativas, destaque para aquelas que carregam isso como uma grande bandeira de distinção, como se fossem superiores ou soubessem de algo que a maioria das pessoas não conhece.



     Falo isso com certa propriedade, pois sou formado em História e, imagino, não deve existir área como a de humanas para a proliferação dessas pessoas, que, tal como arqueólogos, buscam algo inusitado pelo simples prazer de chamar de sua. Um certo orgulho de gostar de algo que ninguém conhece, e que  guarda esse gosto como um tesouro só seu que não pode ou deve ser compartilhado com ninguém. Trata-se de um egoísmo ímpar (qual a graça de conhecer alguma coisa e não poder conversar sobre isso com alguém?). Aliás, praticamente formam confrarias secretas sobre o seu gosto particular.

        Sobre esse ato ou mania, tenho algumas observações. Em primeiro lugar, o aspecto mercadológico. Muitas dessas pessoas consideram que ao adotarem o estilo de vida “alternativo” estariam fugindo das corrompedoras garras do capitalismo. Que ingenuidade, seja grande o público consumidor grande ou pequeno, trata-se de público consumidor, ou seja, de um mercado, o que nos conduz a relações capitalistas de troca. E também, o sistema capitalista se mantém por saber, e muito bem, se apoderar de tudo e transformar em produto, com valor de comércio e com nichos específicos. Em outras palavras, Marx, um grande crítico do sistema capitalista, é publicado em grandes editoras e vendido a um bom preço. Logo, o capitalismo se apossou da própria produção do Marx, ou pelo menos do lucro advindo dela.
Em segundo lugar, a busca pelo título de “intelectual”. Muitos querem se colocar como intelectuais, pessoas de gostos refinados e coisas do gênero. Bem, é muito fácil ser especialista em algo que somente um pequeno grupo conhece. E, além disso, muitos atribuem qualidade à alguma coisa somente pelo fato de distinguir do que é comum ou consumido pela grande massa. O fato de ser diferente não atribui nada além do fato de ser pouco conhecido. Algo pode ser incomum e também tão ruim quanto uma banda de axé. Assim, gostar de algo diferente não torna ninguém um intelectual. Enfim, pessoas que amam o “alternativo”, em sua maioria, não todos, são apenas pessoas que buscam uma distinção, participam de um pequeno nicho e querem aceitação de um grupo que acabaram de conhecer. Ou, de acordo com um amigo meu que atende pela alcunha de Barba, essas pessoas não passas de engodo, placebo, balela.
Mas, qual o motivo dessa grande introdução, ou mesmo desabafo (o blog ainda vai se tornar o blog do abraço)? Apenas para dizer que o projeto quadrinhos não se trata de uma imposição de especialistas ou mesmo de pessoas cheias de si (apesar de que com os meus 125 kg posso dizer que sou bem cheio de mim), mas, tão e simplesmente duas pessoas que leram alguma coisa fora do grande circuito (ou nem tanto assim) e que gostariam de compartilhar com outros, e não guardar como pequenos tesouros que devem ser protegidos de todas as formas. Logo, procuro estabelecer um espaço de diálogo com o leitor (leitor?!) desse vardomiro blog.
E nesse sentido, a obra que trato hoje se chama Três Dedos: um escândalo animado, do autor Rich Koslowski, que saiu no Brasil pela Gal Editora (outra besteira que outros blogs fazem de não divulgar a editora se não ganhar um quirelinho que seja). Em Três dedos: um escândalo animado a história é ambientada em uma realidade distópica na qual os “animados” (Mickey, Pernalonga, Patolino, etc.) vivem na mesma sociedade que as pessoas, ou sejam, eles existem de fato, não se tratam de criações ficcionais e, além disso, os animados vivem no subúrbio dessa sociedade, são párias e excluídos dentro desse complexo e engraçado mundo. Até que Rickey Rat (isso mesmo, trata-se do nome verdadeiro de Mickey, que se trata de uma alcunha artística) se destaca artisticamente e consegue sair da periferia e fazer grande sucesso em um mercado que pertencia unicamente para as pessoas comuns, vamos dizer assim. E, após isso, ele abriu as portas para outros animados que também passaram a fazer parte do show bizz e tiveram uma valorização que nunca tinham conhecido até então.
Mas, há que custo? Esse é justamente o tema da HQ, já na capa a figura de Rickey com um copo de whisky e um charuto na mão e um ambiente de decadência já mostram que a vida desses artistas animados não se tratou de um grande mar de rosas em que tudo deu certo. Aliás, há muitos segredos e muitas histórias mal contadas entre todos esses animados que fizeram sucesso, mas que, no momento em que a história se passa, estão velhos e decadentes. Alguns, estão, inclusive, em sanatórios devido a graves danos cerebrais causados por sucessivas pancadas (quem já assistiu minimamente desenhos na vida é capaz de adivinhar quem seria esse). E a grande questão é investigar o que ficou conhecido como “o ritual”, que seria algo como uma ação necessária para os animados fazer sucesso. Mais do que isso e eu poderia estragar o prazer de ler essa grande HQ.

Em relação à narrativa há alguns elementos bastante interessantes. Em primeiro lugar, toda a história é contada como se fosse a gravação de um documentário. Assim, o narrador poderia ser considerado como o diretor desse documentário, que conduz a investigação e as entrevistas com os animados que poderiam melhor elucidar sobre a questão do ritual. Com isso, o autor vai nos mostrando as “verdadeiras” personalidades de todas as figuras que nos acostumamos a ver com alegria e satisfação na TV. A ideia é mostrar a realidade por traz de personalidades famosas, como se descortinássemos a vida intima de atores e atrizes que povoam filmes e novelas. Portanto, o autor criou um modelo fácil e bastante atraente para nos contar uma história, e também que difere da maioria das histórias em quadrinhos.


Em relação a arte é interessante notar o formato da HQ, que se pode chamar de wide screen, ou seja, mais alongado no cumprimento do que na altura. Toda a arte é feita em preto e branco o que confere um ar mais pesado e sério, que cai muito bem com a proposta da HQ. Traz uma sensação mais sombria que é fundamental para determinadas pesagens da HQ, já que determinadas revelações não são lá tão alegres e festivas como os desenhos que acompanhávamos na TV.
Sendo assim, fica a indicação de uma HQ que traz um tema bastante diferente e corrobora com a possibilidade de se utilizar o formato de história em quadrinhos para contar os mais variados tipos de histórias e temas, essa HQ prova que não somente de heróis e super seres compõem o univer dos quadrinhos. Enfim, se estiver com aquela graninha sobrando (difícil, hein?!) ou querendo investir em algo diferente, mas de grande qualidade, não pense duas vezes: corra atrás dessa HQ.

DOUGLAS "MUSSARELA" PUGLIA

PS: Para quem gostou, há até um vídeo promocional sobre o quadrinho.




2 comentários:

  1. Já que você nao contou toda a trama, quero a revista emprestada.
    E sobre saber algo e nao compartilhar com ninguém, me lembra o que diz a boca pequena a respeito de onde está a outra metade da graça em comer alguém.

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    Respostas
    1. Eu ainda não comprei o meu, quem tem é o Douglas. Mas assim que eu comprar e ler, empresto sim. ^^

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