Pesquisar este blog

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A leitoa

Essa é uma história de família.

Diz a lenda que minha tia-avó estava preparando uma leitoa assada para uma ocasião, não sei dizer qual. Esta tia, na verdade, é esposa do tio da minha mãe, chamado Manoel, mas mais conhecido pelo sigelo apelido de Cuba. Tio Cuba.


Deixe-me falar antes do tio. Há muito que não o vejo, hoje ele passa dos oitenta anos e teve recentemente alguns problemas de saúde que maltrataram muito seu físico. Porém, na época que ouvi esta história, ele devia ter entre sessenta e setenta anos, e era uma figura sui generis. E é o tio Cuba desta época que descrevo (por isso os verbos estão no passado: porque não posso afirmar que a situação perdura até os dias de hoje). A começar pelo tamanho: o tio Cuba era alto, e pesava algo em torno de cento e cinquenta, cento e sessenta quilos. Era gordo sim, mas dada a altura e a largura de sua estrutura óssea, dava a impressão de ser uma pessoa comum numa escala 1 pra 1,5. Um verdadeiro juggernaut. Apesar de não fumar, sua saúde era um mistério da medicina, pois apesar dos péssimos hábitos alimentares (costumava manter uma caixinha de leite longa vida no criado mudo, pra quando sentisse sede à noite. Não usava nem copo) e dos não-tão-raros abusos do álcool, dificilmente ficava doente, e seus exames de checkup não acusavam maiores problemas.

Ele tinha uma voz muito grave e gutural, mais que a do imitado ex-presidente Lula, e carregava em seu sotaque uma grande característica damascena: falar enrolado. Entender o que ele dizia era como tentar falar com um espanhol através de um rádio amador numa noite de tempestade elétrica. Ele não falava, ele cuspia um bolo de palavras e o interlocutor que se virasse pra compreendê-lo.

Outra característica do tio Cuba é que ele mancava conspicuamente. Segundo costa, a manqueira veio de um incidente comum, quase cotidiano na vida de qualquer pessoa normal: em sua juventude, ele trabalhava na Companhia de Cimento Itaú. Um dia, no serviço, um trator, uma coisinha leve assim, ficou atolado. Meu tio resolveu o problema levantando o trator. Isso mesmo. Ele foi lá e levantou a roda atolada do trator no braço. Ou melhor, no braço e nas costas, porque o esforço lesionou sua coluna, donde vinha seu andar claudicante.

Pois bem, este é o tio Cuba. Tinha também o Válter, mais conhecido como Vartinho, que segue seus passos em alguns aspectos, como o da bebida e o peso; é seu capanga no crime, digamos assim. Tanto que tem uma frase que o pessoal da família repete sempre em ocasiões festivas: "Vam' cumê, Vartinho?"

Neste dia do preparo da leitoa assada, estavam os dois varando a madrugada, jogando cartas e  tomando uma pinguinha, quando sentiram falta de um tiragosto. A leitoa estava ali, seria assada em fogo lento no fogão a lenha durante a noite toda. Foi o mesmo que pedir pra somar dois e dois. E que falta faria uma pururuquinha de nada?

No dia seguinte, minhas estupefata tia descobre não mais que restos mortais de sua cuidadosamente preparada leitoa no fogão. Antepastinho aqui, tiragostinho ali, "mais um pedacinho só" acolá... e foi assim que meu tio comeu uma leitoa inteira de aperitivo.

0 comentários:

Postar um comentário

Comente! Invente! Faça o Fex mais contente!