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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Ícones

Quando li Desvendando os Quadrinhos, um dos conceitos que mais me chamou a atenção foi a questão da iconização das emoções, ou seja, a representação metaforicamente gráfica do estado interno da personagem.

Eu nunca tinha parado pra pensar nisto, pois quando eu nasci, os quadrinhos já eram uma mídia bastante madura, com todo um conjunto iconográfico já imerso no imaginário coletivo, de maneira que determinados símbolos podiam ser imediatamente reconhecido em seu significado, a exemplo do que acontece com as letras e números.

"Mas do que, catso, você está falando???"


Estou falando o seguinte: ao longo da existência dos quadrinhos, para superar determinadas limitações inerentes à forma, compuseram uma série de soluções gráficas tremendamente criativas, de modo a criar toda uma linguagem referente unicamente a esta forma artística. Talvez alguns exemplos permitam-me ilustrar melhor o que quero dizer:



Qualquer pessoa letrada não teria problemas em identificar as situações dos quadros acima, mesmo sem ajuda das expressões faciais: 1 - hipnotizado; 2 - bravo; 3 - aflito. Entretanto, estas formas não existem na realidade. Não aparece um minitufão na fronte de alguém que está alterado, nem os olhos desfocados de uma pessoa em transe tornam-se espirais.

Por que, então, associamos este efeito visual às sensações descritas? Porque os quadrinhos têm a árdua tarefa de descrever um mundo multisensorial através de um único sentido, o da visão. Assim, os pioneiros das HQs criaram maneiras de estimular a imaginação do leitor através de símbolos que, repetidos e espalhados, infiltraram-se no imaginário popular, constituindo uma linguagem não-verbal que permite ao autor insinuar visualmente uma ideia para seu interlocutor.

(Aliás, estou percebendo que este blog está abordando repetidamente este assunto. Acontece. É mais ou menos o mesmo mecanismo de quem resolve comprar um determinado carro. Se você está pensando em comprar um Celta, a rua vai encher-se deles, pra todo lugar que olhar encontrará um.)

Outro exemplo comum são os famigerados memes da internet: imagens ligadas a um determinado significado, gerando um símbolo de fácil reconhecimento para quem eles são familiares.

Na verdade, o que eu quero mesmo dizer é que eu percebi que existe uma outra forma de linguagem iconográfica não-verbal, mas com fator auditivo: a linguagem do tráfego. Os veículos em trânsito realizam todos os dias uma não-dita comunicação, seu motoristas trocando mensagens de maneira silenciosa. Ou pelo menos no que se refere ao que sai de suas bocas.

Muitos dos sinais não-verbais de comunicação são regulamentados pelo Código de Trânsito Brasileiro. Resolvi compilar um pequeno glossário com alguns sinais não oficiais que aprendi em minha vida de condutor:

Buzinada dupla rápida: "Obrigado!" (ou "de nada", se for em resposta)

Buzinada simples rápida: "Estou aqui, presta atenção."

Buzinada longa: "Filho da p...."

Buzinada longa do carro que vai entrar na sua frente vindo de outra via: "Fique intangível AGORA!!!"

Buzinada longa para o carro que te fechou: "Sorte sua que eu não sou rico, ou enfiava meu carro no seu só pra ferrar com a sua vida."

Buzinada longa no engarrafamento: "Se eu chegar em casa em silêncio não dá tempo do Ricardão pular a janela."

Arrancar cantando pneu: idem acima.

Arrancar cantando pneu de carrão: idem acima + meu pinto é do tamanho de um picles.

Alarme de carro que aciona repetidas vezes: "Roubem-me, por favor. Ninguém vai vir olhar."

Piscada de luz alta pro carro que vem na sua direção: "Sai da minha faixa, seu corno cego!"

Piscada dupla de luz alta pro carro à frente: "O que o safety car está fazendo na estrada? (que é a pista do planeta Terra, o maior de todos os autódromos.)"

Piscada dupla de luz alta do carro na sua traseira: "Vou demorar cinco minutos pra ultrapassar este ônibus."

Braço pra fora do carro: "Palma, palma, não priemos cânico, tô passando. Não bate em mim, pfv."

Braço pra fora do ônibus: "Se você não vir esse sinal tosco, vou passar por cima."

Braço pra fora da bicicleta: "Eu acredito na propaganda que falou que, se eu fizer isso, os carros vão me respeitar. Também voto no Maluf."

Acelerada desengatado no sinal vermelho, em frente à faixa de pedestres: "Não vou sofrer o peso dos chifres sozinho!"

Quebramolas em Guanhães = rua.

Seta pra direita do caminhão à sua frente na estrada: "Pode passar, se arriscar confiar em mim."

Seta pra direita de um carro na estrada: "Espera que eu vou dar passagem."

Seta em São Carlos: esqueceu ligado quando saiu da garagem OU quer te enganar pra poder te atropelar.

Seta em São Paulo: "Vou fazer alguma coisa, mas ainda não sei o quê."

Seta ao realizar as curvas em uma estrada: "Não entre no carro comigo no volante. Aliás, se possível, fique em casa."

Dedo médio: "Enfia essa buzina no rabo!"

Semáforo de pedestre verde: "Espere os pedestres passarem."

Semáforo de pedestre vermelho piscando: "Espere os pedestres passarem correndo."

Semáforo de pedestre vermelho: "Cuidado com os suicidas."

Buzininha de moto: "Vou fazer merda, mas se eu me ferrar, vou jogar a culpa em você."

Buzininha de moto ao partir quando abre o sinal: "Preciso mudar de São Paulo URGENTE!"

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