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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Filho porque quilos


Não tenho filhos, nem os terei.

Esta é uma daquelas posturas de vida que fazem as pessoas que delas são informadas tratarem seu interlocutor como se ele tivesse dito que acabou de chegar de Júpiter.

Tenho um sobrinho, no entanto. É o mais próximo que tenho de um rebento. Nem me passa pela cabeça a ideia de substituir seus pais, mas ele não deixa de ser meu a-filho-ado.

Confesso que acho curiosa a maneira com que a maioria das pessoas trata este tópico. A ideia de que alguém possa voluntariamente não querer filhos parece ofender, em maior ou menor grau, os seres humanos terrestres. Tanto que foram relativamente frequentes as vezes que tive de justificar minha decisão (quando são gentis o suficiente para não chamar de egoísmo), tal qual aquelas provas chatas de Biologia que muito fiz no colegial e depois tive o prazer de aplicar aos meus alunos.


Não vou desfiar a miríade de respostas que eu tenho a este questionamento aqui, nem vou me alongar no fato que parece muito mais difícil explicar a vontade de procriar que sua ausência, pelo menos no que se refere à retórica.

Em vez disso, vou contar o que se segue.

Minha irmã, Tania, e meu sobrinho de nem um ano e meio de idade viajaram a Itaú comigo para o fim de semana prolongado no 9 de julho, que só é feriado no estado de São Paulo. Ela voltaria a trabalhar na terça; eu, compensando dias trabalhados em recesso, voltaria pra casa apenas na semana seguinte. O plano era que meu pai voltasse com ela, cuidando do bebê durante o dia para que ela pudesse lavorar.

Entretanto, justamente nesta semana o funcionário do fáder prostrou-se na cama com uma forte gripe, deixando meu pai sem condições de abandonar a granja. Esta situação murphética criou um problema para a minha irmã: estando a escolinha do neném em período de férias, e sem ninguém para cuidar dele durante o dia, ela não poderia trabalhar. Eu me ofereci, mas sensatamente recusaram, pois minha experiência com bebês tão pequenos é nula.

Depois de muita argumentação e reflexão, decidiu-se então que o bebê ficaria em Itaú pelo resto da semana; minha mãe viajaria comigo no sábado (pra eu não ir sozinho com ele).

Nas semanas anteriores, o bebezinho tinha feito testes de alérgenos; após o exame, descobriu-se que vacinas ele poderia tomar e quais não. Entre as vetadas, a vacina contra a gripe. Assim, aproveitando o tempo livre, vacinamos o pentelhinho com as permitidas na segunda-feira, o feriado. No mesmo dia minha irmã partiu, de ônibus.

No dia seguinte, ele teve uma febre. Não de todo inesperada, dadas as vacinas do dia anterior. No entanto, a intensidade da mesma inquietou-nos: trinta e nove graus. Demos o antipirético já recomendado pela Tonha (como eu chamo a minha irmã) e, mesmo com a redução do sintoma, procuramos um pediatra, que diagnosticou uma faringite e receitou um antibiótico. Eu e a máder achamos por bem avisar a Tania antes de dar o remédio; ela ligou para o pediatra usual dele e disse para não darmos o antibiótico, mas esperarmos a evolução do quadro para descartar uma reação à vacinação. 

E assim ficamos monitorando o bebê.

Já sem febre, ele estava na agitação usual. Mas a dita voltou, e com a mesma força de antes. Continuamos com a medicação paliativa, bastante eficaz, sempre seguindo as instruções da mana, que ligava constantemente perguntando da situação.

Até aí, tudo bem, certo? O problema é o alarme. Havia três casos da gripe H1N1 suspeitos na cidade, e esta informação deixou-nos apreensivos, pra não dizer desolados. Uma segunda pediatra, amiga da mamãe, disse que era histeria e para não nos preocuparmos, mas quando a história tange uma criança, isso não existe. Consultamos o irmão mais novo do São Longuinho, o Google, lá estava aquele maldito ticado: febre alta súbita. Ele não dava sinais de nenhum outro sintoma, mas este estava bem caracterizado. E os outros poderiam estar mascarados pelo fato de ele simplesmente não saber falar para descrevê-los.

É nesta parte que toda a lógica desvanece do meu analítico cérebro de biólogo. Parecia ser Influenza A? Não. Ele tinha outros sintomas? Não, dada a peraltice quando a febre baixava. Estava convencido de que não era nada demais? Estava. Apostaria a minha vida nisso? Sim.

Apostaria a vida dele? NÃO. No que se refere a filho (e pode colocar no bolo quaisquer figuras filiares, como netos, sobrinhos, afilhados, enteados, etc), essa resposta vem mais rapidamente do que quando a sua mulher pergunta se está gorda. Fosse eu o doente, passaria os dias de cama lendo Mário Prata e pronto.

Este era o nó górdio da questão. Ficamos a terça e a quarta nessa febre inexplicável que insistia em retornar. Ele comeu, bebeu, evacuou, tudo normal. O mau humor só vinha com a febre, e ia embora com ela, e também a irritação na garganta, anteriormente detectada. Mas retornava. De madrugada, o chorinho dele enchia a casa, onde três adultos, um deles uma mãe com PhD no assunto, perambulavam pela casa tal qual barata que fumou um  Raid da lata. Com muito custo ele dormiu. E com mais custo ainda eu dormi.

Aquela insistência no retorno da febre levou-nos a mudar mais uma vez de planos: resolvemos levar o nenenzinho de volta pra casa. Lá, perto da mãe (desconfiávamos que sua condição pudesse ser também a falta dela), que conhecia melhor as peculiaridades dele, e de melhores recursos médicos à disposição, ficaríamos mais tranquilos. Praticamente me obriguei a dormir, para estar em condições de dirigir na manhã seguinte. Despertei mais duas vezes nesta madrugada ainda, cada vez que ele chorou. E meu despertador pode atestar: não é fácil me acordar. E voltava a dormir apertando o travesseiro e rezando.

No dia seguinte, foi o tempo do vovô vir se despedir do netinho. Ficou todo mundo em suspenso, pois não sabíamos qual seria a necessidade vindoura. Meu pai foi adiantar os assuntos dele na granja, minha mãe foi adiantar os serviços dela no trabalho, e eu coloquei mala e cuia de volta no carro, pronto pra ficar o tempo que fosse.

A viagem transcorreu tranquila. Já nos arredores do destino é que deu uma leve febre, trinta e sete, que baixou só com uma compressinha úmida. Tania recebeu-nos no trabalho e, já ao descer do carro, o bebê já estava em seu estado normal. E assim permaneceu até o final do expediente, pois permanecemos no resto do dia para que ela pudesse terminar o serviço. A febre não voltou mais, o que nos deu o diagnóstico confirmado: reação à vacina agravado por uma mãezite aguda.

Não querer ter filhos é uma posição pessoal minha. Mas como a grande maioria das pessoas parece querer transformar o que é uma escolha de vida em bandeira, então que seja esta: é um protesto contra os pais de acidente e ocasião, que tratam seus filhos como estorvo ou meros acasos, sobre os quais recusam-se a assumir poder e responsabilidade, tornando-se nada mais que meros depositórios de uma genética que melhor fariam em não propagar.

E, principalmente, é um tributo a você, pai ou mãe, que tem o brio e a coragem de assumir para si um papel tão fundamental na vida e na formação de um novo ser, e que em nome deste amor que não encontra paralelo, abriu mão de dias de descanso, noites de sono, e sonhos futuros.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Lembro, no começo, quando você sugeriu que eu mudasse o nome do site pra "blog do abraço"... :P

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  2. Até arrepiei de emoção.

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    1. Tá engraçadinho hoje, hein, Robin. ¬¬

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