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terça-feira, 10 de julho de 2012

Cicatriz

Eu tenho um certo sentimento de satisfação quando olho para as minhas cicatrizes. Agora que seus eventos originários estão distantes no tempo e no espaço, elas permanecem como testemunhas silenciosas de que, quieto que eu era, eu tive uma infância, se não boa, ao menos ativa e divertida.

Exceto por uma. Esta testemunhou apenas a minha total falta de noção.


Como já deixei entrever em posts anteriores, minha fama na minha cidade não era muito boa. Alguns apelidos que me acompanharam pela infância e puberdade foram Jaspion, Biscoitão, Cachorro Louco, etc. E sejamos honestos: eu dava motivo. Claro, não que fosse justo ser discriminado por ser estranho. Mas algumas atitudes minhas eram realmente bizarras.

A mais chamativa destas manias era o hábito de imitar desenhos animados, tokusatsus (daí o apelido Jaspion) e personagens de jogos eletrônicos. Eu perambulava por aí, gritando "haddouken!", andando sobre os nós dos dedos das mãos como o Tarzan, fazendo firulas no meio-fio, falando sozinho e atuando em situações imaginárias. Aliás, este último hábito mantém-se até os dias de hoje.

Meus primos divertiam-se com essas maluquices. E como frequentemente essas micagens resultassem em uns safanões ou ralhos da minha mãe, o sarro era potencializado. Eles viviam rindo de situações passadas, e davam o nome de "casos" para as diversas situações: o caso do pote de creme, o caso do mármore, o caso da vassoura...

Um belo dia, numa fase Street Fighter II, estava eu em frente ao espelho de casa para escovar os dentes. Minha mãe já tinha me dado uma chamada pra eu parar com a palhaçada; assim mesmo, do nada veio o ímpeto, e eu fiz o gesto acompanhando:

- Shoryuaai!!!

Fui imitar o golpe shoryuken do Ryu quando, ao ascender, meu braço encontrou-se com a extremidade de metal da porta do armarinho do espelho, que estava aberta, e é consideravelmente afiada. Resultado: um relativamente profundo corte no meu antebraço direito.

Essa cicatriz não prova nada. Prova apenas que o Coringa é um filhadaputa. E que eu sou um weirdo.

3 comentários:

  1. É vardomiro mesmo!!!

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  2. Que orgulho! (Pensamento de Dona Creuza ao ver o filho sangrando depois de um golpe imaginário no espelho de casa).

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    Respostas
    1. Mais orgulho que isso, só no dia que eu contei pra ela: "Mãe, vou fazer a inscrição do vestibular pra Biologia".

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