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terça-feira, 19 de junho de 2012

O Itaú

Eu vim de uma cidade chamada Itaú.

Não nasci no banco. Piada super original, hein? Nunca tinha ouvido...

Talvez sua característica mais marcante - além do familiar nome - seja a sua população: Itaú tem quinze mil habitantes. Nada de anormal, não fosse pelo fato de que ela tem esta demografia desde sempre. De quando me entendo por gente, Itaú tem quinze mil habitantes. Tenho trinta e um anos, e a população não aumenta nem diminui desde que eu tinha seis. Acho que é lá que os professores de Física tomam como exemplo de ideal para um sistema aberto homeostático: a entrada é igual à saída. Mortalidade + emigração = natalidade + imigração. Fico imaginando como deve ter sido a fundação da cidade. Devia ser uma fazenda, não sei, uma terra com potencial de se tornar uma vila, perto de um riacho. Do nada, uma horda de quinze mil pessoas chega ao mesmo tempo, finca uma pedra fundamental, constrói uma igreja, uma venda e voilá! Tá montado o arraial de Pedra Dura, que mais tarde viria a se tornar a poderosa megalópole mineira.*


*Nota: Itaú nunca se chamou "Arraial de Pedra Dura". Melhor explicar antes que me joguem uma pedra dura na ideia.

Este é, na verdade, o significado do nome: Ita - ur, do Tupi: pedra dura. Ou pedra preta, mas acho que este segundo não faz muito sentido, uma vez que o nome vem da enorme jazida de pedra calcárea local; Itaú não é apenas o nome do banco, mas também de uma das maiores fábricas de cimento e cal do grupo Votorantim. Esta fábrica é a espinha dorsal da economia da cidade. Se eu não me engano, aliás, o nome do banco é que tem sua origem no nome da cidade, não o contrário. Mas não conheço a história bem o suficiente para garantir esta informação.

A verdade é que eu não gostava muito de lá. Ao menos, quando jovem. Não me dou bem com seu povo, toda vez que vou visitar meus pais, tenho sinais indeléveis de que, além da minha família e de uns poucos amigos, não conheço ninguém por aquelas bandas. Talvez por ter saído muito cedo, mas não acho que seja isso. Não sei, acho que fui uma criança muito macambúzia, e isso causava má impressão nos colegas que, por sua vez, respondiam da melhor forma que os infantes fazem com o que é diferente. Na verdade, eu não sei se eu fiquei antissocial em resposta à maneira que as pessoas me tratavam OU se as pessoas me tratavam daquele jeito porque eu sou antissocial. Mas divago. Não importa a galinha ou o ovo (de galinha), eu nunca fui exatamente popular por lá.

Saí aos dezessete, como já disse antes mas, passado o ranço, hoje minha relação com a cidade mudou. Não mais a ojerizo, pelo contrário: gosto de ir pra lá. É um lugar pacato, cheio de pessoas queridas; é onde acontecem as rodas de violão dos meus tios e as discussões sobre RPGs com meus amigos Quiabos, pois ainda é nosso ponto de encontro. Não tenho saudade dos tempos idos antes da faculdade, e muito menos ímpetos de morar lá. Mas curto visitá-la.

Da sétima série ao terceiro colegial, tive que ouvir muita besteira por ser itauense, pois estudava em Passos, a cidade vizinha. O passenses parecem ter um prazer sádico em dizer que Itaú é roça ou que é bairro de lá. Mas isso muito provavelmente é porque nunca saíram de Passos. Aliás, eu sempre gostei de prestar concursos em Passos: concorrer lá era praticamente garantia de aprovação, embora não de idoneidade dos editais.

Ultimamente o que tem me deixado meio triste e cabreiro é a violência que parece ter aumentado substancialmente na cidade. Veja, um lugar com quinze mil habitantes não é lá a cidade mais cheia de recursos. Porém era um lugar sereno, onde na minha adolescência, não raro eu voltava para casa a pé, sozinho, às quatro da madrugada, sem temer qualquer abordagem ou risco, exceto algum ocasional cachorro invocado. De uns tempos pra cá, não me sentiria tão tranquilo de manter este hábito. Toda vez que ligo pra máder tem alguma história bizarra, gente assassinada, acidente fatal... até meu primo foi baleado uma vez, sem qualquer motivo, quando foi levar a namorada em casa. Sei lá. Parece que era o único atrativo da cidade, e agora nem esta tranquilidade de estar a minha família segura dá pra ter mais.

Uma coisa curiosa a respeito de Itaú, que sempre me intrigou, e que foi a razão de eu iniciar essa lenga-lenga que são meus posts, é o fato de que seus cidadãos referem-se à urbanidade com um artigo. Quem mora lá não vai para Itaú. Vai para o Itaú. Fulano é do Itaú. Aconteceu lá no Itaú. Nunca entendi este hábito; afinal, não é de praxe referir-se desta maneira a cidades. As pessoas não vão à (ou às) Campinas, vão a Campinas; não são do Ribeirão Preto, são de Ribeirão Preto. Até o momento da postagem deste texto, ao menos, não me recordo de nenhum caso de cidade que utilize o elemento de definição ortográfica. Se ainda fosse uma cidade de nome feminino, até daria pra entender, pois foneticamente seria mais fácil confundir "para Itaú" com "para a Itaú". Mas o gênero masculino não deixa espaço para dúvida.

Subconscientemente, pode ser que gostemos de ser comparados ao banco. Afinal de contas, bancos sim, são endereçados com o artigo. O Santander. O Unibanco. O Bradesco. Se quiséssemos mesmo evitar a piadoca, era só usar o nome completo da cidade, aliás, Itaú de Minas. Não salva, mas evita aquela identificação imediata.

Itaú é mais ou menos como o Flash:  desde que a Globo deixou o nome daquela série dos anos 90 no original, o herói da DC adquiriu um sufixo. Agora, coisas e pessoas muito rápidas não são "o
Flash"; elas são "o The Flash" (ou Deflech para os íntimos). 

7 comentários:

  1. Lembre-se que o Banco Itaú surgiu aqui....

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  2. Então, já ouvi essa história, mas não conheço os detalhes pra afirmar com certeza.

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  3. Fex, é isso mesmo a primeira agência do banco Itaú é esta que temos até hj na cidade! Tenho saudade da tranquilidade que a cidade tinha. E hj a violência só faz aumentar. Qto ao tratamento de referência à cidade realmente é mto curioso!
    Adorei seu blog, principalmente as tirinhas (com os Quiabos)!! kkkkk!!!

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  4. É fato, na união do Itaú com o Unibanco a EPTV fez uma reportagem lembrando que os dois bancos surgiram aqui no sul de minas, o Itaú aqui e o Unibanco não lembro onde....
    Éder.

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    Respostas
    1. É, eu sei que tem um lance assim mesmo, de que surgiu em Itaú, depois se uniu a um outro banco que também estava indo bem na época, e acabou virando esse monstro que é o Banco Itaú.

      Nos comentários não tem como se identificar? Esse blogspot não tira o pé do meu almoço...

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  5. Se colocar a opção Nome/URL tem como identificar o comentário...

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