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quarta-feira, 6 de junho de 2012

A liminar

RPG - sigla para roleplaying game, ou jogo de interpretação de papéis.

Nem todo mundo é familiar com a idéia, embora várias mídias atuais utilizem conceitos que tiveram sua vanguarda no RPG. A principal característica deste "jogo" é a interatividade. Jogar RPG é contar uma história cuja autoria é conjunta; enquanto o narrador prepara o arcabouço, os jogadores fornecem os protagonistas. Cada jogador interpreta uma personagem, que é traçada de forma genérica - mais uma orientação que uma descrição fechada - mas não tem falas decoradas ou roteiro pra seguir. Desta forma, à medida que a história é contada, suas ações vão influenciando seu decorrer, de modo que o resultado é sempre imprevisível, pois virá da sinergia entre os participantes.


O primeiro e um dos mais famosos RPGs de todos os tempos é o Dungeons & Dragons. Alguns podem estar familiarizados com o termo por conta do antigo Caverna do Dragão; de fato, o desenho animado tirou sua inspiração diretamente deste jogo (curiosidade: o nome original do Mestre dos Magos é Dungeon Master, o nome que se dá ao narrador de D&D. E como o carequinha de vermelho, sua função é apenas indicar os caminhos; as escolhas de como trilhá-los é sempre dos jogadores). Com forte influência de Tolkien (ainda que seus criadores neguem), este RPG tem uma temática, como costuma-se dizer, medieval fantástica. Ou seja: magos, cavaleiros, bruxas, ogros, reinos, elfos, masmorras e, é claro, dragões.

Na minha adolescência, jogar RPG era a coisa mais nerd que um poderia fazer. De fato, eu e meus amigos éramos chamados de Turma do Quiabo (nome que adotamos sem pestanejar) devido a nossos hábitos, estranhos e incompreensíveis a uma cidade provinciana como Itaú. Tudo bem, não era como se fôssemos nos tornar os reis da popularidade se parássemos de jogar.

Realmente, escutar uma conversa de rpgistas sem ciência do fato pode causar estranheza pois, como os personagens são vistos em primeira pessoa, é comum referirmo-nos às histórias como se as tivéssemos vivido. E ouvir frases como: "Lembra aquela vez que a gente enfrentou aquela gangue Brujah? É, aquela vez em que você deu uma correntada na nuca do arconte..." ou "... meu, daí a quimera começou a voar e veio pra cima da gente, e acertou o Cicrano com o rabo, quase que ele morre envenenado..." geralmente costuma causar uma reação bastante lógica nas pessoas: "Eu, hein!"

Muitas das situações mais divertidas que já vivemos aconteceram em nenhum outro lugar além da nossa fértil imaginação.

Explico estas coisas para os leitores que não conheçam RPG poderem entender a vardomirice que pretendo contar a seguir. Histórias de RPG não costumam vingar em um único dia; na maioria das vezes, cada sessão de jogo funciona como um capítulo de livro ou episódio de série. Campanhas (que são reuniões de histórias) podem durar semanas, meses, ou mesmo anos. Nossa turma sempre tentou manter o hábito de jogar, mas como era de se esperar, a vida adulta dificulta deveras a constância que dedicávamos em nossa adolescência. O primeiro Quiabo a se afastar fui eu: aos dezessete, fui pra São Carlos pra fazer faculdade. Mas, com o tempo, a turma se esfacelou. Ainda somos amigos, sempre nos encontramos quando podemos, mas o RPG ficou dificultado.

Dificultado, mas não impossível, de modo que, mesmo após o afastamento, jogamos em diversas ocasiões. Mateus era um narrador bastante animado a mestrar. Certa vez ele montou uma campanha que lá ia vingando, apesar das mazelas supracitadas.

Como eu não participava da mesma, em certa ocasião eles me contavam o que tinha se passado na história:

- ... então a gente deu de cara com um dragão verde. Pelo tamanho, deu pra ver que já não era um jovem. Falamos com ele, que se recusou a entregar a gema, então a luta começou. Cara, tava foda, o bicho era muito forte! Mesmo o bárbaro do Gustavo tava levando muito dano, e ele já tinha derrubado o mago do Mingal. A gente ia levar um cacete, mas daí eu, que tava de druida, invoquei um elasmossauro, que foi a nossa salvação. Ele segurou o dragão enquanto eu curava o mago...

- Elasmossauro?

- É. Era o "Erasmossauro", o dinossauro tremendão! Então, aí...

Ainda que eu não estivesse fazendo faculdade de Biologia, levei muito tempo pra completar o álbum do Surpresa da Nestlé pra ter bom grau de certeza da minha próxima afirmação:

- Mas o elasmossauro é um dinossauro aquático.

Um ligeiro tremor de pânico percorreu a sala.

- Né não!

- Claro que é. É um dinossauro de corpo maciço, cauda curta e pescoço longo, carnívoro. Aliás, muita gente acha que o monstro do lago Ness é um elasmossauro.

Ainda me olharam com certa dúvida, mas diante de uma explanação com este nível de detalhe, resolveram confirmar no livro de referência para os monstros que, batata, o descrevia em seu texto conforme eu disse. Não havia ilustração alguma, o que explica a informação ter passado despercebida.

Rimos, e eles continuaram a contar a história. Porém, depois desta conversa, a campanha miou. Não jogaram mais. Tempos mais tarde, quando me informaram disto e eu indaguei o porquê, o Éder me deu esta explicação:

- Lembra do dragão verde que a gente derrotou com o elasmossauro? Então, como ele descobriu que o bicho era aquático e lutou em terra, ele arrumou um advogado, entrou com uma petição pro Luis Zveiter (que, à época, estava em voga por conta de polêmicas decisões à frente do tribunal desportivo da CBF), que soltou uma liminar anulando o resultado da luta. Seguiu o processo por danos morais, pois ele ficou tremendamente mal-falado entre os outros dragões, teve problemas psicológicos e tudo mais. A quantia em peças de ouro que a gente teve que pagar, mais o tratamento psiquiátrico do dragão fez com que a gente tivesse que abrir mão de tudo que a gente tinha! Até o lobo companheiro animal do Douglas ele teve que vender, e ainda não cobriu toda a dívida. Hoje nossos personagens prestam serviços escravos ao dragão pra sanar o débito...

E foi assim que a campanha do Mateus terminou no tapetão.

5 comentários:

  1. E devido a essa história e outras mais que você passou a ser conhecido como Sapo petulante......

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  2. Eu tava aqui imaginando: "quem será este ser anônimo comentando no blog?"

    Olha, a história de Vampiro do Mingall eu até concordo, mas essa aí não foi culpa minha, oras! O bicho é aquático! Eu não sabia que ele ia entrar com a ação! hahahahahahahaha

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  3. huahuahuahuahua..... Preciso descobrir como me cadastrar nesse blog, mas tem a história do Anderson, outra do Mateus, da Mingal, enfim, vc é um sapo de mão cheia.... kkkkkkkk
    Éder.

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  4. Qual história do Anderson?

    Mas também, quem manda cês me deixarem de fora? Se eu jogasse ia dar pitaco como jogador, não precisaria dar uma de sapo! hahahahahahahahaha

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  5. Não era culpa nossa qdo vc morava fora e RARAMENTE vinha a Itaú..... E pensando bem, com seus comentários nas nossas histórias, vc vinha até q MUITO! kkkkkkkkkkkkkkkkk

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