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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Bicicleta

Boa parte de minha infância e puberdade passei em cima de uma bicicleta. E, sendo eu uma pessoa pacata desde muito cedo, a maior parte dos acidentes e ferimentos que tive durante este período vieram deste veículo não-motorizado.

A primeira bicicleta, na verdade, não foi minha, mas da minha irmã, de natureza muito mais ativa e aventureira que a minha. Ela devia ter uns quatro anos e eu, seis, quando meus pais a compraram: era uma Monark infantil, de quadro branco, aro de plástico rosa e pneus azul-celeste. Claro, dada a idade, e pequena magrela tinha rodinhas auxiliares atrás, ao menos no início.


Foi nesta bike que eu aprendi, efetivamente, a pedalar, dando voltas no quintal de casa e tombando uma vez atrás da outra até conseguir equilibrar-me. Este evento criou um pequeno quiproquó pro meu pai: eu agora andava sem as rodinhas, mas Tania, dona da mesma, ainda necessitava delas. Lembro dos passeios ao anoitecer no campinho ao lado de casa: cada um dava uma volta completa na pracinha, depois era a vez do outro. A cada volta, meu pai colocava ou retirava as rodinhas, dependendo de quem fosse a vez. Filho dá muito trabalho.

Também foi nela que tive meus primeiros acidentes. Certa vez, andando pela calçada da estação da Fepasa, o pavimento acabou junto com o prédio, o que causou um desnível para uma parte ainda terrosa do meio-fio. Encrustada no chão tinha uma garrafa quebrada e alguns cacos e, do lado direito deste trecho de terra, uma cerca de arame farpado. Eu tinha uma confiança injustificada na resistência dos pneus da bike que, logicamente, não resistiram ao contato com o vidro, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio. Na minha lembrança, ficou a impressão que a coisa ficou meio na câmera lenta, lembro de ter começado a cair pra direita e fechar os olhos. Quando os abri, estava do outro lado da cerca, cujos arames eram relativamente bem espaçados. Tendo sido aparado pela terra, levantei-me sem maiores injúrias, apenas meio sujo de barro. Passei pela cerca tranquilamente mas, quando me curvei pra apanhar a bicicleta, senti um ardor nas costas, e algo úmido grudando na pele. Em casa, descobri um único arranhão que ia de fora a fora no meu lombo.

Claro, nem se compara ao que meu então vizinho Tiago passou com esta mesma bicicleta: quebrou o braço no meio-fio.

A primeira bicicleta que era efetivamente minha foi uma Caloi Cross, daquelas médias. Foi comprada usada e tinha o quadro amarelo vivo, com guidão, pedais e aros azul cromado. Acho que foi a combinação mais exótica que eu já vi, mas eu gostava dela. Era única, sem dúvida. Nesta época, eu já morava no pátio da fábrica (assim conhecido por ficar nas imediações da primeira instalação da fábrica de cimento Itaú). Esta bicicleta era bem resistente e leve, mas frequentemente ficava apenas com o freio da frente. Certa feita, estava eu descendo a avenida Eng Manoel Batista a milhão quando passei em frente à casa do Grahan, meu vizinho à época (o nome mesmo é John Grahan; minha mãe disse que o pai dele é fã de livretos de western americanos), resolvi parar. Meti a mão no freio (apenas da frente, não se esqueçam) e deu a lógica: capotei. Mas o curioso foi como eu capotei: a bicicleta inclinou-se velozmente, até que o pneu da frente também saiu do chão; simultaneamente, aterrisei sobre o meu cocoruto e continuei girando, até que o pneu de trás tocou o chão novamente, depois o da frente, que foi quando eu efetivamente caí. Eu literalmente dei uma cambota* com a bicicleta.

*Cambota (do mineirês): pirueta, salto mortal, giro completo pra frente.

Mas o tombo mais feio foi com a minha segunda bicicleta, uma Cruiser azul-escuro sem marcha, a mesma do post do enterro. Aliás, eu sempre me considerei guerreiro por acompanhar meus primos na subida com aquela bicicleta. Mais ninja que eu, só o Roninho, que desbravava as inóspitas ladeiras de Itaú com uma Barraforte(!). Neste dia, vínhamos ele, meu primo Renato e eu, igualmente voando baixo, descendo a rua da prefeitura, que desemboca na minha casa, pouco antes da Avenida Liberdade. Há dois quebramolas seguidos, um no quarteirão anterior e um já no de casa. Na velocidade em que estávamos, ao passar pela lombada, a bicicleta empinava e saía do chão, mas estávamos acostumados àquilo. Desta vez, entretanto, quando toquei o chão após o primeiro salto, perdi um pouco do equilíbrio; na segunda tartaruga, ainda muito rápido, minha mão esquerda escapou da manopla. Como resultado, eu saí voando prum lado e a bicicleta pro outro. Aterrisei sobre o meu ombro esquerdo, fui ralando uns metros, e bati a testa nos paralelepípedos.

Obviamente que não me lembro desta parte, mas consta que eu desmaiei. O que me lembro foi, ainda no chão, de ouvir a voz da minha irmã gritando: "Mããããe!! Mããããe! Corre! Fernando! Sangue!". Sem enxergar nada pela já então avançada miopia, alguém ajudou-me a levantar, enquanto eu perguntava "Meus óculos? Cadê meus óculos?". Minha mãe chegou desesperada, me levou pra casa e me enfiou debaixo do chuveiro pra limpar o ferimento. Sem eufemismos: ardeu pra ca-rá-le-o. Senti cada pingo batendo na pele. Até hoje, esta é a minha maior cicatriz, e minha sobrancelha esquerda também é falhada da testada na pedra dura do chão.

A dor perdurou um tempo, pois as características do ferimento eram as de uma queimadura; não rolou nem ponto, e eu fiquei algumas semanas usando apenas camisetas cavadas. Mas o que eu lembro que realmente me incomodou foi que meu óculos esgaleparam-se na queda, de modo que tive que esperar a substituição ficar pronta. Foram duas semanas praticamente cego.

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