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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Psicose

No terceiro ano da faculdade eu entrei para o coral. E, confesso, esta foi uma das atividades artísticas mais gratificantes de que já participei. O único problema que eu vejo em coros é a necessidade inerente da participação de mais pessoas; se eu pudesse, faria um coral apenas de clones meus, tão animados ou mais a cantar só por cantar.

Logo para fazer o teste, claro, já aconteceu uma vardomirice: na verdade, a iniciativa de entrar para o coro foi da Gislaine; embora eu gostasse de sugar da faculdade toda e qualquer experiência - curricular ou não - que ela pudesse me oferecer, esta idéia em particular foi dela. No dia combinado, eu apareci para fazer o teste e ela, não. Acabei cantando em coro por mais de cinco anos, e ela nunca mais nem mencionou o assunto.


A única pessoa do grupo todo que eu conhecia era o Gustavo, que era monitor no curso de dança de salão que eu fazia paralelamente há mais de seis meses. E ele já tinha sua panelinha lá dentro, a saber: Carol, Daniel, Fernando (que depois passou a ser chamado "Fernandinho" para diferenciar de mim, a despeito de ele parecer o João Pequeno do Robin Hood) e Sônia. Por uns tempos ele nem me deu atenção, mas depois da minha primeira apresentação, em Dourado, eles me chamaram pra sair e acabei entrando pro octeto de cinco pessoas que, comigo, éramos seis.

Na primeira vez que saí com eles, estava na mesa uma moça que eu já tinha visto no coro, mas não conhecia. Ela parecia à vontade, então supus, novato que era, que ela também estava ali a convite.

Viviane** era o nome da pessoa. Quieta, não conversava muito, parecia bem feliz de estar ali. Mais tarde, acabei descobrindo que ela tinha se autoconvidado para aquela reunião... entre outras coisas.

** Nome fictício.


Que outras coisas? Por exemplo: um dia, na saída do ensaio do coro, ela chamou o Gustavo de lado e, do nada, começou a despejar: disse que estava apaixonada por ele, que era o homem da vida dela e etc. A coisa foi num crescendo, algo como:

- Então, eu te observo a muito tempo, e...


-  ...finalmente criei coragem pra falar com você: eu gosto de você.

- Estou apaixonada por você. Muito apaixonada!

- Na verdade, eu te amo! Te amo tanto, e vou te amar pra sempre!

- Vou esperar por você até o fim da minha vida!!

Meio bizarro, não? Eles mal se conheciam. É verdade que declarações muito rápidas e repentinas assustam homens que tenham certa aversão a compromisso, mas num caso como este, a gente tem mesmo é medo de ser acordado no meio da noite com a janela aberta, o vento farfalhando as cortinas, e uma sombra feminina de olhos amarelos vidrados, com um cutelo ensanguentado na mão, babando enquanto de olha ternamente por cima do edredon.

Cruzes.

Mas isso não impediu que eu tivesse minha própria experiência sexta-feira 13 com ela. À época a monitora da dança de salão, Érica**, andava meio que me paquerando. Eu não queria nada com ela, mas também não tinha motivo nenhum pra evitar a experiência. Ah, esse ego... É escroto, eu sei, não precisa me dizer. Acontece que a Érica morava junto com Viviane na moradia estudantil da faculdade.

Em certa ocasião, Érica propôs um cinema. Aceitei, combinamos e, como Viviane estivesse perto,  a convidamos, de modo que sairíamos os três. Elas sairiam juntas da faculdade e nos encontraríamos num ponto de ônibus na Avenida São Carlos, donde partiríamos para o shopping.

Hora combinada, eu lá esperando, desce a Viviane sozinha do ônibus:

- Ué, cadê a Érica?

- Então, ela está se sentindo mal. Pediu desculpas, mas não vai dar pra ela vir.

Bom, pena. Bora então, né?

- Olha, na verdade eu nem tô muito a fim de ir ao cinema, não gosto dos filmes que estão em cartaz... você mora muito longe daqui?

- Hã... não, não é longe.

-  A gente podia passar na locadora e alugar um filme, ao invés de ir ao cinema. Que tal?

- Tá... ok.

Passamos na locadora, ela selecionou um filme e fomos pra casa. Eu morava então sozinho, minha tia tinha se mudado há pouco pra Itaú. Em casa, o vídeo-cassete ficava no quarto que foi da tia, de modo que pedimos uma pizza e assistimos ao filme de suspense na cama. Cama de casal.

Depois do filme, ficamos conversando mais um tempo, até que ficou muito tarde. Em Sanca, os ônibus paravam de circular relativamente cedo.

- Hummm, acho que vou ter que dormir aqui.

Olha, eu já conhecia a história que se passara com o Gustavo (que, após um tempo dessa conversa de "vou te esperar pela vida", pegara ojeriza pela senhorita em questão). Eu me deixei levar pela inércia da situação e acabei ali, sozinho, trancado numa casa com ela. Inicialmente, não achei que fosse ter qualquer problema, uma vez que ela era obcecada por outro cara, mas à medida que a noite e a conversa desenrolavam-se, foi crescendo um desconforto, quase uma sensação premonitória. Eu detesto ser presunçoso da intenção alheia, passei a vida como um baita pegning por causa disso, mas àquela altura eu tinha sérias desconfianças do que se passava em sua mente.

Independentemente disso, eu não tinha a menor vontade de qualquer intimidade maior. Ainda que o alvo tivesse sido o Gustavo, aquele papo brabo é suficiente para afugentar todos os homens que ela pudesse vir a conhecer pelos próximos dez ou quinze anos. Fiz o que me pareceu certo à época: arranjei pra ela um moletom pra servir de pijama, arrumei a cama de casal bem quentinha e piquei a mula para o meu antigo quarto. A porta não trancava, mas tinha um lance pra abrir e fechar, tinha que ter as manhas pra lidar com ela.

Bom, a noite se passou, e eu cheguei intacto à manhã seguinte. Depois de um tchau rápido em meio ao famigerado climão, separamo-nos e tudo mais transcorreu normalmente.

Na próxima aula de dança de salão naquela semana, descobri que tinha feito a coisa certa: Érica me contou que, na verdade, não passara mal coisa nenhuma! Aparentemente, Viviane demorara-se no banho até ficar bem tarde e, enquanto Érica se arrumava, ela saiu apressadamente, com a desculpa que não queria se atrasar. Ou seja, ela armou pra Érica não aparecer.

Cruzando com os acontecimentos que se seguiram, costumo ficar bem feliz de lembrar desta ocasião de maneira distante, bem longe, vivo e são no conforto do meu lar.

Que filme ela escolheu pra assistirmos? Ha!

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