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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Polícia para quem precisa de carona

Outro dia falei da ausência de contato com a criminalidade. Lendo e relendo o post - sim, eu sou leitor do meu próprio blog. Se algum dia você ler algum texto que tinha algum errinho e o dito sumiu, não foi corretor automático.

Voltando: lendo o post, acabei percebendo que meu contato com o outro lado também é parco. Entenda-se por "outro lado" o braço armado da lei, ou seja: a polícia.

Claro, uma vez que não sou um meliante e nem moro na periferia, não teria mesmo motivo pra ter muita interação com polícia. Na verdade, a maior proximidade com os homi que já tive foi o inspetor da escola militar onde eu estudava, que era cabo da PM, e, mais tarde, o marido da minha prima, de São Paulo. Mas este último não estava, então, em serviço.


De qualquer forma, eu não posso dizer que sofri qualquer tipo de constrangimento causado pela polícia. Nunca fui obrigado a descer de um ônibus fantasiado de mulher e revistado, por exemplo. Toda vez que a vi em ação, ou estava a segura distância, ou ela tinha vindo pra me auxiliar de alguma forma. As histórias sobre violência policial são para mim, por enquanto, uma realidade distante, a exemplo da própria criminalidade.


É um pouco de sorte, claro, mesclada a um respeito natural que tenho por figuras de autoridade. Acho que a polícia tende a ser mais cascagrossa com quem não demonstra respeito, essa questão da imposição parece ser cultural entre qualquer tipo de policial.

Isto não impede que eu ache os cops, no geral, uns fanfarrões. A situação mais potencial que me leve a interagir com a polícia é o trânsito. Já fui parado quatro vezes, que me lembre. Nas duas que me pararam na cidade, não teve problema algum. Nem na estrada, aliás, mas aí é que vem a vardomirice.

A primeira vez foi na Marechal Rondon, sentido São Paulo. Havia uma viatura com dois policiais, que me fizeram sinal pra encostar. Parei, julgando tratar-se de uma blitz comum de trânsito, mas não era: um dos soldados precisava de carona até a capital. Oras: se não fossem a viatura e os uniformes, eu não teria parado; depois de abordado, vou falar o quê? "Não, fica aí e espera o próximo otário"? Ainda tivemos que parar no posto policial seguinte, porque um par de motoqueiros muito loucos do barulho estava na estrada aprontando altas confusões, e ele quis avisar os colegas pra enquadrarem os wannabe Mad Max.

Mais tensa foi a segunda vez. Também na Rondon, desta vez no sentido Araçatuba, mesma situação: viatura, dois malacos fazendo sinal... deve haver algum tipo de script que eles passam no curso de formação inicial. Entra o meganha e principia-se aquela conversa fiada de dois desconhecidos que nunca mais se encontrarão na vida, mas que parecem não suportar o peso do silêncio. Uma meia hora de viagem, e ele pergunta o meu nome. Digo, e ele se surpreende: "Puxa, rapaz, então somos xarás! Meu nome também é Fernando!"

Foi aí que deu um clique: eu já conhecia aquele ser. Havia mesmo sido apresentado a ele, numa reunião em que estava presente até o Secretário Municipal de Saúde. À época eu trabalhava no Centro de Controle de Zoonoses, que vinha sofrendo uma série de retaliações do braço local da APA, a Associação de Proteção dos Animais.

A APA costumava ter livre trânsito no CCZ, pois os cidadãos tinham o hábito de levar animais abandonados pra lá, e a associação ajudava a tratá-los e a conseguir lares para eles, pois Centros de Zoonoses não são locais adequados para bichos saudáveis.

Vale esclarecer que a região de Araçatuba é endêmica para a leishmaniose. Tecnicismos à parte, esta zoonose transmite-se unicamente de hospedeiros animais, mais notadamente canídeos, para humanos, através da picada do mosquito-prego. Desta maneira, apesar da lei ambiental proibir a eutanásia de animais domésticos, no caso de positivo para leishmaniose, o cão era sacrificado, pois era uma questão de saúde pública. Lidar com a leishmaniose visceral canina - LVC - era uma das principais atividades do CCZ.

O problema era quando bichos saudáveis permaneciam por muito tempo no canil da Zoonoses, pois acabavam por contrair a doença dos animais geralmente sintomáticos que ali estavam. O que começou a acontecer foi que, em diversas ocasiões, os animais que vinham sendo cuidados pela APA positivavam e, consequentemente, eram imolados. Isto causava certo desconforto, que foi num crescendo, até se tornarem acusações abertas à veterinária chefe do local.

A cisão total acabou por acontecer num dia em que um membro da APA entrou na Zoonoses sem avisar à chefe, e começou a afirmar que oito cães depositados por ele no dia anterior haviam sido eutanasiados junto aos doentes. Foi uma celeuma, o tal representante da Proteção aos Animais chamou polícia pra fazer BO, chamou imprensa e o escambau. Clamou ser policial (embora não estivesse em serviço), deu entrevista furiosa à imprensa, e a coisa esteve a dedos de um confronto físico com outros funcionários do CCZ. Depois disso, a APA foi expressamente proibida de entrar lá, e os animais abandonados ou não tinham mais onde serem depositados para doação, ou não eram mais tão bem cuidados quanto antes, pois a Zoonoses não tinha contingente pra cuidar desta demanda.

Acho que não preciso dizer quem foi o membro da APA que causou a confusão, né? Vocês já fizeram esta ponte.

E foi assim que eu dei carona a um raivoso e ferrenho defensor dos animais, que tinha ao seu lado, naquele momento, um uniforme de trabalho, um distintivo, uma arma e a fé pública, e que estava em guerra declarada ao órgão onde eu trabalhava, por bem uns cento e cinquenta quilômetros.

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