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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Perdido

A viagem para a Bélgica foi uma aventura para mim. Em Bruxelas, fizemos um passeio-exploração para encontrar pinturas em paredes referentes a quadrinhos espalhadas pela cidade (falarei disso em outra ocasião). Lá as ruas são, em geral, estreitas e sinuosas, e as calçadas se confundem com as ruas, deixando as coisas um pouco imprevisíveis para quem não está acostumado; e a maioria das figuras estava mais ou menos mocosada.

Digo "aventura" de forma bastante pessoal, devido a uma característica minha: eu sou um completo perdido. Nasci com uma quase total falta de senso de direção. Minha noção de orientação é tão boa quanto a de um rato bêbado num labirinto. Minha tia Elza costumava dizer sobre si mesmo, e acaba valendo pra mim também: nasci sem azimute no cérebro, seja lá o que isso significa.


Se eu subo um andar por uma escada com mudança de direção, quando eu entro no apartamento, já não sei pra que lado é a rua. A peça mais importante do meu carro é o GPS: sem ele, eu até conseguiria dirigir, mas não chegaria a lugar algum.

Aliás, toda vez que visito um lugar diferente, conheço dois: a cidade durante o dia e a mesma cidade durante a noite. Pra mim, são lugares completamente distintos!

Esta característica minha nunca foi um grande problema fora da terra da garoa. Quando eu morava em qualquer cidade do interior de Minas ou de São Paulo, eu tinha um método: primeiro eu procurava conhecer o caminho que eu mais utilizaria. De casa pra faculdade, por exemplo, ou para o trabalho. Fazia este caminho por semanas, até memorizar sem erro. Depois, eu ia fazendo pequenos experimentos, mudando uma esquina ali, um quarteirão aqui, até que a localização gravasse a ferro incandescente na minha mente.

Um episódio emblemático aconteceu quando morei na capital pela primeira vez.

(Sim, é verdade: eu cometi este erro duas vezes. Eu já tinha morado aqui uma vez e, mesmo assim, voltei. Pode dar zero pra mim).

Eu tinha sido efetivado em um concurso pra professor em uma escola pública em Santo André; como eu não tinha qualquer passado em Sampa, mudei-me a princípio (que acabou virando o ano todo) para a casa da minha tia Arlete. No que diz respeito a São Paulo, ela morava no paraíso: a dez minutos de caminhada da estação do metrô. Estação esta, aliás, que era a mesma onde eu pegaria o tróleibus para Santo André. No primeiro dia, minha prima me deu as explicações básicas de como chegar até a estação, e assim fui.

Até então, eu nem sabia como funcionava a distribuição de aulas. Chegando na escola, a má notícia: não havia aulas o suficiente para que eu ficasse num só período; parte das minhas aulas seria de manhã, parte seria à noite. (Na verdade, acabei com aulas distribuídas pelos três períodos, pois minha nubice me levou a pegar aulas no fundamental à tarde, uma vez que eu não fazia idéia de quanto ganharia no fim do mês; o salário no estado é uma verdadeira salada de gratificações e bonificações, de modo que um salário básico de duzentos reais acabe virando mil e trezentos. Mas essa palhaçada torna bastante difícil você prever sua remuneração final, se você acabou de entrar).

De qualquer modo: como os horários estavam todos malucos, eu ia ter que ficar na escola até as dez e quarenta da noite, pois poderia ser escalado para dar aula em qualquer das janelas. De modo que cheguei à estação Jabaquara pouco depois da meia-noite. Isso, per se, já era incômodo o suficiente: eu vim do interior de Minas, onde as pessoas pensam que São Paulo tem um assaltante armado em cada esquina, especialmente à noite.

Passei pelo bequinho escuro entre a avenida que levava à casa da tia e fui seguindo pelo caminho que percorrera de manhã para ir ao trabalho. Ando, ando, ando, e nada de encontrar a rua do prédio. Em determinado momento concluo que não era tão longe, que já devia ter passado do ponto. Dou meia-volta, ando mais um tanto, quando percebo que estou chegando muito perto da estação novamente. Caralho, passei de novo! Retomo o caminho inicial, ando, ando, ando, e... nada!

Já estava há quase meia hora procurando quando resolvo ligar pra casa e pedir orientação. Paro num orelhão à porta de uma padaria de esquina que ainda estava aberta, com gente circulando, e ligo pra casa. Atende o meu tio Gilmar:

- Alô.

- Oi, tio, aqui é o Fernando. Escuta, estou aqui na avenida perto de casa, mas não estou conseguindo encontrar a rua certa.

- Ah, tá... me fala onde você tá que eu vou aí te buscar.

- Não, tio, não precisa, eu já estou perto de casa. Só preciso de uma orientação, uma referência pra achar a rua.

- Hummm... onde você está?

- Estou na frente de uma padaria, que fica numa esquina. Não dá pra ver o nome da rua.

- Qual o nome da padaria?

- Assim Assado.

- Ah... (risadas). Você está na esquina de casa. Só seguir essa ruinha que você chega aqui.

Pois é. Eu estava NA RUA de casa, e não a reconheci. Cheguei a achar que tinha saído pelo lado errado do metrô, mas só o que aconteceu foi minha completa falta de noção atuando a pleno vapor.

A minha sorte é que o prédio onde morava a tia Arlete era o único alto da rua, ou corria o risco de eu entrar na travessa e ainda confundir o edifício.

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