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sexta-feira, 18 de maio de 2012

'Descrição'

Quando eu estava em idade pré-universitária, havia algumas lendas urbanas em relação aos vestibulares que nos esperavam ao fim desta empreitada. Um dos mais conhecidos destes contos, pra citar um exemplo, é o da famosa redação sobre o tema Tempo, onde o candidato teria preenchido a folha da composição com "tic-tac",  e, ao final, a onomatopéia "trrrrimmmmm!!". Na fantasia, este aluno teria tirado um grande e redondo dez.

Claro que estas histórias são alegorias. Afinal, por mais extraordinário que pareça, mesmo que tenha acontecido de verdade em alguma ocasião, o que vale neste caso é o combo entre criatividade e coragem. Uma vez que a história se alastrou, fazer algo deste naipe resultaria em óbvia eliminação do certame, pois a inventividade estaria excluída da equação.


Apesar disso, há lições a serem aprendidas nestas histórias. No caso da fábula acima, acho que a lição seria "seja ousado e inteligente, e você será recompensado". Qualquer ganhador do Pulitzer concordaria com esta máxima.

Outra lenda urbana desta época foi a de um candidato cujo concurso do qual participava consistia de uma extensa prova de quatrocentas questões, a serem resolvidas num período de quatro horas. Intrigado, nosso herói teria lido a prova toda e, ao chegar na última, ter-se-ia deparado com a seguinte questão (redação de livre interpretação minha):

"Um candidato de um concurso realiza uma avaliação objetiva de quatrocentas questões, dispondo de um tempo máximo de quatro horas. Desprezando-se quaisquer acréscimos, bem como o tempo gasto com atividades outras que a resolução das questões, qual a taxa média de questões por minuto o candidato deverá resolver, para que consiga responder à prova integralmente?

a) 1,4 questões/minuto
b) 2,7 questões/minuto
c) 1,67 questões/minuto
d) 4,06 questões/minuto
e) É impossível responder adequadamente a quatrocentas questões num espaço de quatro horas."

Assim, o nosso bravo Nietzshe dos certames teria marcado unicamente a letra "e" da questão 400 e entregado, sem nada mais escrever na prova além de sua assinatura, exigida pelo concurso. O resultado desta façanha teria sido uma nota máxima e um primeiro lugar, pena que muito provavelmente pra escriturário em alguma prefeitura do interior.

Esta história, apesar de fantástica, foi-me contada numa época muito mais crédula e impressionável. Suas implicações adentraram meu subconsciente e, deste dia em diante, nunca mais fiz uma prova sem antes dar pelo menos uma passada de olho por todas as questões. Isso chegou a me ajudar na vez em que Joel, o malandro professor de matemática, passou-nos uma prova de dez questões e, no rodapé da última, escreveu que apenas oito eram necessárias. Muita gente fez a prova inteira antes de descobrir esta pequena tramóia do nosso querido tutor troll.

E hoje estou aqui, perguntando a mim mesmo a razão deste hábito não se ter mantido pela minha vida adulta, visto que seria útil em coisas mais complexas que provas de vestibular. Durante duas semanas eu trabalhei em cima do arquivo que vai compor o banco de dados de materiais do meu setor. É um processo complicado, minucioso, pois cada item deve estar descrito de forma detalhada, incluindo detalhes físicos, contábeis e fiscais. Não é difícil, mas é trabalhoso.

Depois de conferir, transferir, aferir e outros ferir, por duas semanas, os dados do arquivo, finalmente terminei. Faltava apenas um campo pra corrigir, que era a "descrição sumária dos materiais". Nada de outro mundo, mas foram mais de quatro mil itens transformando "Aparelho de ar condicionado Springer modelo XKZ 5698 Serial 480000000028938 18000 BTU" para "Condicionador de ar 18000 BTU".

O serviço foi monótono e tedioso, mas chato mesmo foi no final, quando fui dar uma última conferida antes de mostrar para o chefe: passei os olhos pelas instruções que constavam do cabeçalho e lá estava, no campo que eu tinha acabado de preencher: "Não é necessário preencher este campo se o item tiver o campo 'sequencial' preenchido".

Completar o campo "sequencial" foi a parte que demorou mais tempo
em todo o processo. ¬¬

Bem, é isso. Nada como algumas horas de serviço completamente inútil pra alegrar o seu dia.

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