Pesquisar este blog

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Religião

Não costumo e não gosto de falar de assunto sério nesse blog, que ele não foi criado pra isso. Mas não raro a atitude deixa de ser vardomirice e ultrapassa o limite da estupidez pura e simples, e eu tenho este ímpeto de escrever minha opinião a respeito.

Outro dia estava assistindo a este vídeo do PC Siqueira, que fala a respeito de religião e outros comportamentos de rebanho da espécie humana. Comentando, eu disse que era cristão, mas que concordava com o ponto de vista e os argumentos dele. Daí veio um otário qualquer na resposta e disse algo, mais ou menos assim: “Parabéns, você está a meio caminho de se tornar um ateu =)”

Caro ateu: não estou não. Tenho plena convicção da existência de Deus. Eu tenho uma certa dificuldade em definir-me para aqueles que procuram um rótulo, pois não faço parte de nenhuma religião, mas não sou ateu, nem agnóstico, nem qualquer outro eufemismo acachapante que vocês encontraram pra descrer crendo. Para mim mesmo, eu me denomino cristão, mas parece que as pessoas têm dificuldade de encaixar-me em seus limitados conceitos a respeito desta palavra.


Vou tentar explicar resumidamente no que eu acredito: estudando as ciências naturais, é possível perceber um padrão, que pode ser explicado através do conceito de sinergia: quando a interação entre duas ou mais partes é maior que a simples soma das mesmas. Por exemplo, uma colônia de bactérias pode ser do tamanho de uma planária, mas no platelminto, as células estão organizadas de maneira a formarem um todo coeso e uno, um ser cuja complexidade o torna mais que uma simples colônia. Entende o raciocínio? E, na Terra, esta sinergia é observada em todos os níveis da já clássica corrente organizacional:

átomo >> molécula >> célula >> tecido >> órgão >> sistema >> organismo >> população >> comunidade >> ecossistema >> biosfera.

Cada nível possui características próprias, que não podem ser explicadas pela simples somatória das características do andar anterior. Chega-se mesmo a falar na hipótese Gaia: de que toda a biosfera funcione como um super-organismo que, tal qual os indivíduos pluricelulares, trabalhe de maneira una e coordenada.

Entretanto, como não penso que a Biologia reine suprema no campo das ciências naturais, entendo que esta sinergia não se restrinja ao nosso planetinha; antes, dentro da enormidade do universo, que não posso mensurar nem sequer na minha imaginação, todos os elementos atuem de forma sinérgica dentro de uma entidade única. Se você quer chamar esta unidade de Buda, Alá, Jeová, Javé, Deus, Energia, Cosmos, Ki, Grande Batata Branca ou qualquer outro nome que deseje, não importa. Mas, pra mim, este ser existe.

Já viu aquela cena final do filme Homens de Preto? Em que a câmera vai afastando-se rapidamente, até descobrirmos que todo nosso universo nada mais é que o conteúdo de uma bola de gude alienígena? É uma boa alegoria. Nossos sentidos limitam nossa percepção. Pode ser que nosso universo seja, em relação a outro universo, do tamanho de um átomo, vagando por aí. Ou pode ser que num único átomo haja todo um universo. Infelizmente, há um limite para até onde conseguiremos enxergar.

Há pouco menos de dois séculos atrás, o ser humano não conseguia sequer entender a Evolução, e hoje ainda há gente que “não acredita nesta bobagem”. Isso porque ela ocorre em períodos de tempo que excedem a duração de vida humana em milhões de vezes, mas que, dentro do tamanho do universo, ainda é um espirro. Até que surgiu um indivíduo cuja mente foi iluminada, que conseguiu perceber nos pequenos detalhes uma idéia muito maior que qualquer comum pudesse imaginar. E assim é com todos os grandes nomes da ciência: Newton, Pasteur, Einstein, Franklin, Mendel, etc: eles viram o que ninguém mais conseguiu, e por isso hoje nossos pensamentos são iluminados por seu legado.

Isso, para mim, é o que explica o sobrenatural. Aquilo que vai além da natureza nada mais é do que a própria natureza atuando num nível imensurável, que não consigo vislumbrar e, por isso, me parece inexplicável.

Imagine-se uma formiga diante de um motor de um navio: ela não conseguirá enxergar todas as partes do motor. Cada formiga conhecerá apenas a parte que lhe está ao alcance. Algumas formigas excepcionais conseguem ver o funcionamento de uma peça ou outra, mas o motor inteiro está fora do alcance de todas pelo simples fato de exceder a capacidade de observação. Mas isso não significa que o motor não esteja ali, bem como o navio em volta dele, o oceano à volta do navio, o planeta que contém o oceano, etc.

Se este é um ser consciente? Aí já entramos numa questão diversa, pois afinal de contas, o que é consciência? Eu tenho problemas em entender o que é o pensamento. Como e por quê ele ocorre. Penso que sim, este ser é consciente, mas não em qualquer nível que consigamos explicar. Por exemplo: eu sou consciente, mas não sei o que acontece em cada uma das minhas células a cada momento. Não consigo sequer conceber com funciona a consciência de Deus.

Mas então, por que o Cristianismo? Porque faz sentido. O que eu disse a respeito das mentes iluminadas que percebem o que outros não conseguem não vale apenas para as ciências naturais e para as leis fundamentais que regem os fenômenos da natureza. Existem pessoas que possuem um entendimento natural destas forças que, inexplicáveis que são, as acabamos rebaixando ao nível do misticismo. A filosofia cristã, alicerçada na base “ama a Deus sobre tudo” (pois tudo é Deus) e “ama ao próximo como a ti” é, em termos simples, maniqueístas e utópicos, a solução para qualquer problema social. As religiões falam em paraíso. Paraíso é um lugar onde todos os habitantes vivam segundo estes ensinamentos.

Isso é o que eu penso hoje. Mas, como costumo dizer, se tem uma coisa que não tenho é certeza. De nada. Tenho a minha convicção, mas, no momento que eu deixo de me questionar e evoluir meu pensamento, ela se torna um dogma. E o problema tanto das religiões como do ateísmo é justamente esse: o dogmatismo que cega para as possibilidades.

Tudo isto apenas para dizer que crente não é sinônimo de idiota, como julgam os poderosos ateus detentores de toda a razão. No momento que você deixa de se questionar, esta é a hora em que surge mais um imbecil, acredite você em Deus ou não. Veja o fundamentalismo ateu, um exemplo perfeito de oximoro. Pessoas que querem difundir o ateísmo enquanto modo de vida. Honestamente, não vejo nenhuma diferença entre este movimento e aqueles perpetrados por "pastores" que buscam apenas enriquecer em cima da ingenuidade dos fiéis. Ele não convoca a uma reflexão interna sobre a realidade das coisas; antes, procura afirmar-se como um movimento social antirreligioso, porém de ideais igualmente vazios de constante aprimoramento. Se você é ateu e não vê o quão absurdo é participar de uma associação que prega o ateísmo como se fosse uma doutrina, então você é só mais um peão qualquer que permite que pensem por você, da mesma maneira pela qual você tanto condena os religiosos.

Com este texto não quero convencê-lo da minha crença, apenas explicá-la. E não preciso que nenhuma outra pessoa no planeta concorde comigo para fortalecer minha convicção. O que eu faço a você, que conseguiu chegar até aqui, é um convite: reflita sempre sobre os seus valores. Pare para se questionar. Você não precisa mudar de idéia. Mas pensá-la e questioná-la constantemente é o que separa um ser humano de verdade de um mero componente da massa, pronto a ser manobrado pelas idéias de outro, seja no campo da religião, política, publicidade, ciência, filosofia, entretenimento ou qualquer outro campo de conhecimento da sociedade.

Um ser humano com preguiça de pensar é uma coisa triste. Muito triste.

Edit: eu iria postar este texto apenas num momento posterior, mas o grande Carlos Ruas, do Um Sábado Qualquer postou uma tirinha que tinha tudo a ver com o assunto, então resolvi pegar uma carona e usá-la para ilustrar o texto (esperando que não haja nenhum problema autoral!)

6 comentários:

  1. cara legal o texto,o pior que as pessoas que são criticadas na tirinha ,e no seu texto,defilmente vão ententer,ou ao menos ler, vim pro blog pelo seu comentário ,la no um sabado qualquer, e queria a proveitar e falar pra você ouvir o meu podcast ,a ultima edição ,falamos sobre gatos de botas,o filme do rr soares ,o filme Ted e muito mais http://podcastcinema.blogspot.com.br/2012/04/podcine-28-felino-ted-rr-soares-de.html e de seu feedback, e curta la no pagina no facebook/podcine ou twitter @podcine

    ResponderExcluir
  2. Bem, em primeiro lugar, bacana o seu texto, no qual eu concordo com a maior parte dele. A grande questão que me incomoda em relação a religião é justamente a necessidade de se ter uma. Em outras palavras, que seja cristão, católico, umbandista, espirita ou mesmo seguidor da ordem Jedi (em alguns países pessoas declararam pertencer a essa crença) mas você ainda teria alguma salvação por pertencer a uma religião que seja. Ora, não preciso ir a nenhum templo, igreja ou o que for para que eu possa acreditar em alguma coisa ou para que me ensinem o que seria correto ou errado. Há uma discriminação muito forte em torno de pessoas que simplesmente afirmam que não tem religião alguma. Se você disser que é ateu então, melhor afirmar que crê no demo, uma vez que você poderia mudar de opinião em algum momento. Assim, crítico, principalmente, a força opressora e impositora de modelos de conduta que qualquer religião nos impõe. E o pior, e muito bem destacado por você: a religião como geradora de dogmas, ou seja, aquilo que impede a discussão e debates de ideias, e, consequente, desenvolvimento. Assim, as religiões, na minha opinião podem ter um papel social a cumprir na manutenção da ordem, o que por si só traz também uma série de problemas.
    PS: Putz, o cara de cima comentou um puta texto desse, profundo e que nos leva a pensar para simplesmente fazer propaganda do podcast. Antes a gente, que ninguém nos ouve, mas pelo menos não fazemos isso.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Então, Douglas, é justamente este o problema.

      Não bastasse a profusão de religiões, agora também temos o fundamentalismo ateu pra torrar as paciências. Ateus que se reunem numa associação (como uma religião), para pregar seus preceitos (como uma religião) e ridicularizar a crença alheia (como uma religião), como se sua filosofia fosse a máxima expressão da Verdade Universal (em suma: como uma religião).

      Nada tenho contra ateus. O que eu tenho é contra a imposição de ideias e também contra a postura de ser o conhecedor de todas as respostas e todas os mistérios. Estou sempre aberto (ui!) ao debate, mas na verdade acepção da palavra. Duas pessoas gritando pra ver quem consegue sobrepujar a outra no gogó não se é uma situação que se enquadre neste conceito.

      Como dizem na internet: "Véi, na boa: tu sabe é de porra nenhuma."

      Quanto à discriminação, sei do que está falando. Se você anda por aí ostentando um rótulo, vai ser alvo da crítica de todos que usam rótulos diferentes; mas se você se recusa a usar um, será alvo de todos. Eu, pelo menos, tenho enorme dificuldade em resumir numa única palavra todo o tempo que eu passo pensando meus conceitos e filosofias. Vê-se pelo tamanho deste texto. Por um tempo em usei "cristão" pra me definir, mas ainda assim acabei causando mais confusão que se eu dissesse logo que sou ateu e pronto, não tem o que discutir.

      Hoje eu não falo mais nada. Nem que sou ateu, nem budista, cristão, hindu, demonista ou o raioqueoparta. Tenho meus princípios, e só dou ouvidos a quem também esteja disposto a ouvir.

      Excluir
    2. Outro dia ouvi numa palestra um conceito interessante.

      O padrão de comportamento daqueles que possuem a excelência:

      Ouça a todos.
      Siga a ninguém.
      Observe os padrões.
      Trabalhe pra caralho.

      (tradução livre do inglês).

      Excluir
  3. Ateu você não está perto de ficar, mas deísta eu tenho certeza.
    Eu já fui: cristão(católico depois protestante, depois só cristão mesmo, acreditando nos fatos bíblicos apenas); fui fazer um "teste" pra saber que religião seguir, porque eu estava duvidando de muitas coisas, daí deu budista. Eu fui falar pro meu pai: _Pai, eu sou mais budista que cristão!
    _Que isso, tá doido, você é cristão!
    Aí eu li a bíblia toda e me tornei deísta, depois comecei a procurar em blogs e páginas, vendo a história de outras religiões e essas coisas, virei um metade agnóstico metade deísta.
    Socialmente meus colegas e minha família me consideram ateu, meu pai me considera pagão.
    Ah, e quando eu ainda era cristão, minha irmã disse que eu era ateu, por ser inteligente, duvidar de tudo e não ir pra igreja haha. E foi aí que eu fui pesquisar tudo.
    Mas hoje, eu fico brincando que sou fadista, aquele que acredita no Mundo das Fadas. Haha.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Deísta? Não saberia dizer o que é isso, pode até ser que eu já seja e não saiba. Pra mim, esta questão dos rótulos importa muito pouco, não acho que uma palavra consiga definir, ou sequer resumir a trilha filosófica que eu tento seguir.

      Por exemplo, teste pra saber que religião seguir? Como funciona isso, é como um daqueles testes psicológicos vocacionais?

      Eu me defino cristão, como eu disse, porque as pessoas precisam de um rótulo, então dou um a elas. Mas, de fato, não tenho, para mim mesmo, uma palavra pra me definir. Sequer um texto como este é capaz de eslarecer exatamente todo o tempo que eu gasto pensando neste tipo de coisa.

      Mesmo o rótulo de cristão é problemático, analisado de perto. Jesus é filho de Deus? Do meu ponto de vista, todos nós somos. Jesus é Deus? Todos somos. A maior parte dos milagres atribuídos a Jesus Cristo não me importa. Sei que muita gente o segue porque ele curou os enfermos, andou sobre as águas, transformou água em vinho, multiplicou os pães e ressuscitou a si e a outros dos mortos. Mas, pra mim, isso tudo é irrelevante. Se eu acredito que essas coisas aconteceram, não sei dizer.

      O que eu acredito, no entanto, é no cerne do pensamento cristão, o escopo da pregação de Jesus, que são valores como o amor ao próximo, o perdão, a humildade, a paciência, o altruísmo; em todas estas coisas eu creio. Creio que, estivéssemos todos ao menos tentando alcançar estes objetivos, viveríamos numa sociedade, num mundo, muito melhor.

      O que eu acho é que perdemos tempo demais procurando o sobrenatural, enquanto um monte de problemas mundanos precisam do melhor lado de nossa humanidade de forma muito mais imediata.

      Excluir

Comente! Invente! Faça o Fex mais contente!