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sábado, 21 de abril de 2012

Fanfarronice

Depois do filme Tropa de Elite, muita gente passou a usar o termo "fanfarrão", mas poucas com o sentido original da palavra. Fanfarrão é o sujeito que gosta de intimidar as pessoas por intimidar, geralmente se valendo de uma valentia falsa ou de um equivocado senso de poder. Ou seja: aquele sujeito que te incomoda até o dia em que você enfrenta.

Como a fanfarronice é um blefe, a palavra acabou por extender seu sentido a todos aqueles que falam, mas não sustentam: faroleiros, mentirosos, contadores de papo e afins.

Eu me lembro de uma situação, há uns bons pares de anos, em que meu primo Túlio e eu pudemos contar com o verdadeiro sentido da palavra pra evitar uma confusão. Como eu já falei em posts anteriores, nesta época Itaú tinha como única opção de lazer o Bobódromo, que era o calçadão onde todo mundo ficava indo de um lado para o outro, feito tonto. Adolescentes não costumam ter um bom filtro seletivo e, assim, costumávamos então andar em companhia do Caçamba. É, pelo apelido, vê-se logo que não podia ser boa coisa.

Caçamba, Caçamba... que pessoa!


Estávamos lá, cumprindo o repetitivo ritual de ir para a outra extremidade da calçada, quando passamos por uma turminha meio peri. Não que eu esteja insinuando que Itaú tem tamanho pra ter periferia, era uma galerinha que morava na chamada cohabinha, que era discriminada com sendo a marginália de Itaú. Dá até vontade de rir, é vardomiro discriminando vardomiro. De qualquer forma, quando passamos por eles Caçamba, esse amor de pessoa, fez um comentário, que não lembro exatamente qual foi, mas com um sentido mais ou menos assim:

- Nossa, agora esse pessoal da cohabinha tá descendo aqui pro calçadão (sic), que podre...

Chegando na esquina, nosso amigo com nome de parte de caminhão despediu-se e foi-se embora, deixando-nos ali com aquele barulho. Na volta, quando passamos pelo mesmo pessoal, ouvimos uma provocação, saída daquele meinho:

- Foi esses quatro ôi aí, ó!

Ambos meu primo e eu usávamos óculos. E "ôi", pra quem não entendeu, é "olho" em mineirês. Aparentemente, eles tinham ouvido o comentário de Caçamba. Ao que Túlio retruca, para minha completa estupefação:

- "Quatro ôi" aqui pra vocês! - enquanto batia o punho fechado na palma aberta, em desafio, e depois girava o dedo indicando a turma toda.

Continuamos andando, eu já bem mais consciente do ambiente ao meu redor. Sabe, aquele aguçamento dos sentidos quando você está com medo? Não sei quanto a vocês, mas eu nunca briguei na rua, e não gosto da idéia de apanhar à toa.

Achando por bem não passar de novo por eles, demos a sorte de achar um banco vazio e sentamos. Não se passaram cinco minutos, quando dois deles nos abordaram novamente, em pé, em contra-plongée:

- Ei, maluco, o que você quis dizer com isso aqui? - enquanto repetia o gesto do meu primo. Enquanto ele falava, outros se juntavam à agora turma que se aglomerava ao nosso redor.

- Quis dizer que eu arrebento vocês todos juntos. - respondeu, tranquilamente.

Puta que pariu, Túlio! Eles eram uns oito!

- Vem cá... cê num é daqui não, né?

- Sou não, por quê?

- Então cê num sabe como é que é o esquema aqui. Aqui quem manda somo nozes!

- Manda aqui o caralho. Vai tomar no cu.

Pronto. Já até tava imaginando meu corpo extendido no chão, pisoteado por uma manada de chucros. Pra minha surpresa, porém, eles começaram a desdenhar e rir entre si, meio desconsertados pelo enfrentamento do meu primo. Em meio a comentários difusos de "iiih, aê mano, fica esperto", "a casa vai cair pro seu lado" e "da próxima vez cê vai ver hein!", entre outros do gênero, foram se afastando e... caíram fora!

Ou seja: não passavam de um bando de fanfarrões! Pra nossa sorte, aliás, porque eu desconfio seriamente que Túlio também era, só que tinha uma poker face mais convincente...

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