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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Arrombamento

Minha relação com a criminalidade da sociedade pode ser resumida a uma palavra: medo.

Mas não o medo real, de quem convive constantemente com esta realidade. É mais para o medo do desconhecido, o temor que se sente de um lugar escuro, daquilo que não se vê, apenas imagina. E, apesar de viver em São Paulo hoje, minha relação com a marginalidade da cidade é a mesma de quando era moleque, há quase vinte anos, crescendo na (então) pacata cidade de Itaú, interiorzão de Minas: apenas projeções, baseadas em relatos e notícias.

Ocorreu-me hoje esta epifania: eu nunca presenciei uma cena de crime. Nunca vi uma arma em uso, apenas em coldres de policiais ou expostas em alguma vitrine. Nunca fui abordado por um bandido, nunca fui assaltado, nem presenciei nada do gênero. Nunca vi briga de torcidas nem motoqueiros ganqueando motoristas no trânsito. Coisas que, segundo consta, são cotidianas em São Paulo.


A criminalidade é real, sem dúvida, está toda ao meu redor. Meus primos paulistanos já foram assaltados, minha tia já presenciou acerto de contas entre gangues. Todo mundo que conheço tem um relato de uma situação tensa dessas. Mas pessoalmente, as únicas situações periclitantes que conheço são aquelas que imagino. E eu imagino, como imagino! Questiono-me muitas vezes como reagiria diante de uma arma, diante de uma abordagem na calçada, nas proximidades de um tiroteio ou de uma contenda coletiva. Questiono-me por uma única razão: não faço a menor idéia de como é estar ali.

A coisa mais próxima que já me aconteceu em termos de crime foi, obviamente, vardomira. Morava à época em São Carlos com a minha tia Elza. Todo período de férias ou feriados eu passava em Itaú, com a minha mãe. Como a tia era aposentada, costumava coincidir suas visitas à cidade natal com as minhas, de modo que a casa ficava desolada nestas épocas.

Vale lembrar que, mesmo ela sendo solteira e morando sozinha, durante os trinta anos em que viveu em São Carlos sua casa nunca foi assaltada. Um molequinho, uma vez, conseguiu esgueirar-se pela minúscula janela frontal, levando apenas itens da geladeira e coisas de pouco valor, mas foi só. Arrombamento, nunca.

Desta vez, entretanto, a coisa foi um pouco diferente. Ficamos em Itaú coisa de três semanas ou mais. Quando voltamos, ao entrar em casa, notamos que a energia tinha caído. No padrão, o disjuntor tinha sido desligado por alguém. Religamos e entramos em casa, meio ressabiados. E com certa razão: alguém tinha arrombado a porta dos fundos, que dava para a área de serviço, e havia uma cabeça metálica de uma ferramenta meio enfiada pela porta que dá acesso ao interior da casa, que resistiu à intrusão. Não sabemos direito o que dissuadiu o bandido de continuar tentando, se foi a nossa chegada ou se aquela peça estava ali há dias.

Claro, esse tipo de coisa deixa a gente apreensivo, mas esta não foi a parte ruim. O meliante não conseguiu levar nada, embora pudesse ter tentado a sorte com a máquina de lavar, único eletrodoméstico a que conseguiu ter acesso. Mas nem isso. O problema foi o desligamento do disjuntor, que atribuímos a uma ressalva contra um possível alarme: minha tia tinha o hábito de estocar alimentos como carnes, linguiças e outros no congelador. Tendo ficado desligado provavelmente por semanas, a situação dos alimentos guardados estava, assim, como dizer? Podre.

Quando abrimos a porta do congelador, era um retrato do caos. Parte dos mantimentos chegou mesmo a se liquefazer, e o odor era o bafo de uma hiena depois de comer dobradinha de carniça com molho de esgoto, acompanhada de caipirinha de chorume. O cheiro era quase sólido, a náusea deixava a sensação de se ter levado um soco na têmpora.

Tia Elza e eu gastamos um bom tempo limpando aquela porcariada. Nessas horas valeu o reforço no estômago que adquiríramos, eu no estágio na Análises Clínicas, tia Elza nos muitos anos de hospital. Dava até dúvida sobre como dispor daquele, hã, material, eu tinha certeza de que o lixeiro não ia querer chegar perto daquele saco. No fim, tivemos que desmontar as placas da geladeira, porque a parte liquefeita infiltrou-se por lugares desconhecidos até pelos alimentos mais aventureiros. Mas não adiantou muita coisa, o fedor permaneceu. Tentamos tudo: algodão com álcool, com éter, carvão ativado, café, desinfetante; nada foi capaz de arrefecer o budum, que demorou uns três meses pra sair.

E mesmo assim, muito tempo depois do ocorrido, sempre que abria a geladeira eu tinha a impressão de que, antes do frio, saía uma baforada de "ar quente" antes.

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