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terça-feira, 27 de março de 2012

Secretária Eletrônica

Existem dois momentos cotidianos em que eu fico realmente tenso.

Um deles é quando, em algum jogo online ou fliperama, alguém entra contra. Putz, o bicho pega nessa hora. Fico nervoso de um jeito que só percebo quando a disputa acaba, geralmente no fim, quando estou ofegante, coração palpitando, a musculatura rígida e contraída e suor frio na testa. Minha adrenal é uma fanfarrona.

A outra é quando a ligação telefônica cai na secretária eletrônica. Não toda vez, claro. Normalmente, quando cai na caixa postal eu simplesmente desligo antes da mensagem finalizar. O problema é quando eu preciso falar com a pessoa, ou seja: vou ter que deixar recado.


Nesta hora surge uma admiração por vloggers e artistas de TV. Como alguém consegue simplesmente gravar um diálogo com ninguém, olhando pra uma máquina, e que será assistido sabe-se-lá-quando-sabe-se-lá-por-quem? Claro, na secretária eletrônica a coisa é muito mais brutal. No caso dos vlogs ou da TV, a pessoa geralmente está apoiada num texto previamente escrito e ensaiado; além do quê, no mais das vezes, é possível corrigir, regravar qualquer coisa que você ache que ficou ruim. Ainda mais hoje, em plena era do vídeo digital. E eles têm, ainda, a prerrogativa de não estarem dirigindo-se diretamente a ninguém. Geralmente têm um público cativo, o que é uma certa garantia de que irão agradar.

Mensagem na caixa postal não tem nada disso. Primeiro, quase sempre você é pego de surpresa. Ninguém liga pra pessoa já pensando: "se cair na secretária vou falar isso e assim, assim...". Nada disso. Quando atende a voz gravada, você começa a conversar com ela. Demora uns segundos até você perceber que não é a pessoa, segundos preciosos onde você poderia estar pensando no que dizer. Você só percebe que vai falar com a máquina quase no bip, quando já é tarde demais. Não é à toa que a maioria das mensagens de voz começam com um longo silêncio. O cérebro ainda está se ajustando ao novo paradigma de conversar não com alguém, mas com o gravador maldito. Mentalmente, o tempo da mensagem foi gasto com o processamento do conceito: "Fudeu!"

Além disso, é uma chance, e pronto. Se você gaguejar, tossir, espirrar, for interrompido por um cachorro ensandecido, praguejar contra o vizinho cuja música não te deixa concentrar no recado, falar besteira, tudo isso vai ficar gravado, e não há possibilidade de desfazer. E você vai ficar em casa depois, pensando nas merdas que disse e imaginando a cara do interlocutor quando ouvir aquilo. É quando começa a paranóia: você já imagina os vizinhos, o cônjuge e até o cachorro dando risada daquele humorístico involuntário. Alguns ainda têm a brilhante idéia de ligar de novo e pedir pra ignorar a primeira mensagem. Esta técnica é tão eficiente quanto botões confirmando a idade do internauta em sites pornôs, ou avisos antipirataria na introdução dos DVDs. E pior: agora são duas mensagens ridículas esperando a pessoa chegar em casa.

Fora a possibilidade de ter caído na secretária simplesmente porque a pessoa não quis te atender. Putz, isso sim, é atroz. Você liga, atende a voz gravada, soa o bip e começam as dúvidas existenciais: "será que ele/a não quis me atender? Será que estou incomodando? Puxa vida, que sacanagem! Não sou tão chato assim. Ou será que sou? E se eu estiver incomodando todo mundo ao meu redor, e ninguém quer me dizer, e agora deixaram cair na secretária eletrônica só pra ver se eu me tocava? Afinal, é como dizer a uma pessoa que ela tem bafo! Não dá pra falar na cara dela... Puxa vida, será que é isso? Será que eu tenho mau-hálito e esse foi o jeito que encontraram de me dizer?? Essa não!!!"

E lá vai o sujeito pra farmácia comprar Listerine.

Eu não levo o menor jeito pra conversar com a máquina. E minhas mensagens gravadas sempre ficam, pra ser gentil, patéticas. Como eu sei disso? É que em casa tem uma secretária eletrônica. E, antes de eu me mudar pra lá, minha mulher, então namorada, já tinha a mesma máquina. Eu morava, no início do namoro, a mil quilômetros de distância, e o telefone foi um instrumento muito usado nesta época. Como consequência, houve vezes em que fui obrigado a deixar recados. Mas esta não é a pior parte. Por algum nostalgismo bizarro, ela insiste em manter todas as mensagens que eu já deixei na secretária intactas.

Se o amor é cego, no meu caso, deve ser surdo também.

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