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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

À preposição

Obnoxious.

O problema de se entender duas línguas é que, por diversas vezes, alguns conceitos que você deseja transmitir são muito melhor expressados por uma delas que pela outra. Por exemplo, o dicionário traduz obnoxious como desagradável, ofensivo, chocante. Nas vezes que vi sendo usado, geralmente era para um misto de arrogância com chatice, uma espécie de prepotência ativa.

Todo mundo conhece alguém obnoxious. Meu chefe é um exemplo típico. Mas devemos ter muito cuidado: ninguém está livre de agir desta maneira. Ainda mais sendo um adolescente sem-noção.

No primeiro ano do colegial (ou ensino médio, ou qualquer outra porcaria que os pedagogos tiverem inventado pra justificar seus salários e diplomas) a professora de Português era a dona Virgínia, também conhecida pelo singelo apelido de dona Carneirinha, tanto pelos cabelinhos encaracolados quanto pelo temperamento plácido. 

Quer dizer, "plácido" na superfície, né? Já houve situações onde podia jurar que ela pularia na carótida do disinfiliz. Não me entenda mal, a dona Virgínia era uma excelente professora. Apenas acho que ela não estava preparada emocionalmente para lidar com uma turma de adolescentes ensandecidos.

Esta história me virou bem uns dois anos e tanto de eventos contraditórios em relação à professora. Até uma prova única e diferente da do resto da sala já cheguei a fazer.

Estávamos estudando as classes de palavras. O tópico era "artigos". Num dado momento, quando a apostila falava sobre onde NÃO usar artigos, chegamos a uma frase de exemplo que era algo assim:

"Darei estes chinelos a meu pai."

Estando a aula na parte de usos errôneos do artigo, dona Virgínia assertiu que o "a" da frase estava colocado de forma inadequada, pois era um artigo feminino que se referia ao substantivo masculino "pai".

Não é difícil perceber que, na verdade, quem errou foi a apostila. O erro estaria em uma virtual crase, que provavelmente não foi impressa por erro na gráfica.

De qualquer forma, eu, que apenas nas passagens do cometa Halley costumava participar da aula, não deixei passar em branco:

- Dona Virgínia, este "a" não é artigo, é preposição.

- Não, imagina! É artigo! Estamos na aula de artigo!

(As exclamações são propositais. Ela falava assim mesmo.)

- Não, não. É preposição.

- Ferrnando, é arrtigo! Querr pararr de teimarr?!

(Ela tremia o rr como um gaúcho quando ficava brava.)

- É preposição...

A última frase já foi dita com condescendência. A esta altura, já começaram as vaias e gritos de "sabe nada!" e "dá moral pra ela não!" normais da típica crueldade adolescente. Não sei se foi a classe que a intimidou, ou se ela acabou se dando conta do engano por si, mas, neste momento, ela recuou (um pouco):

- Tá, vejamos então...! Vamos analisar a frase novamente...!

E eu, sem piedade:

- Ok, podemos até analisar a frase de novo. Mas que é preposição, é preposição.

Enfim. Obnoxious.

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