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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Fala logo, carai!

Eu tenho medo de ser promovido. Aliás, a idéia não me atrai nem um pouco. Meu trabalho é chato e tedioso, e virar chefe significaria ter que coordenar o trabalho chato e tedioso de um monte de gente, sem ganhar tão a mais assim pra isso.

Aliás, que impulso estranho este que nos impele a uma hierarquia? É sempre assim: basta existir mais de um tipo de alguma coisa, e já querem ordenar de alguma forma. A idéia de cooperação, de divisão de trabalho, embora seja responsável pelo sucesso relativo da espécie humana, é um conceito estranho mesmo a mentes supraordinárias.



Em Biologia, pra ficar numa área familiar, vê-se muitos exemplos assim. Quantas vezes já não ouvi a balela de que "o ser humano é o ápice da evolução". Sim, realmente é. Assim como todas as espécies viventes do planeta. Inclusive a mais minúscula e simples das riquétsias (deixemos os vírus fora desta). Cada espécie é o ápice de sua linha evolutiva. Outro exemplo biológico comum: tal tipo de célula é o mais importante. Ex.: neurônios são as células mais importantes do organismo. Ninguém pensa no absurdo desta afirmativa. O simples fato de que, sem as "menos importantes" células da glia, o sistema nervoso não pode funcionar já demonstra o absurdo desta afirmação.

Enfim, sei lá. Não que não exista hierarquia, ou que ela não seja importante dentro do contexto social, mas porque a necessidade de anexar o adjetivo "melhor" ao que, muitas vezes, não passa de "diferente"?

Mas o que eu menos entendo é o impulso que nos leva a tentar ser superior aos outros. Quanto tempo mais de desenvolvimento do nosso lobo cerebral frontal vamos precisar pra entender que as coisas só funcionam na diversidade? É este impulso ridículo que faz um idiota (geralmente em bandos de idiotas) atacar alguém por estar vestindo uma camisa de outro time. Veja que coisa imbecil. Sem outro time, acaba-se o esporte. Para que haja campeonato de futebol, é necessário que alguém torça pra outro time.

Este assunto me intriga bastante, principalmente no que se refere a chefias. Parece que ser um estorvo é pré-requisito pra que alguém ocupe um cargo acima dos outros.

Acho que, quando alguém é promovido, é levado pra uma salinha poeirenta, dessas escuras com uma luz na cara, tipo gibi do Dick Tracy, e alguém diz: "Quer ser chefe? Mandar nos outros e ganhar mais? É simples: basta beber deste copo que está aí na sua frente. É uma neurotoxina seletiva: vai matar seus neurônios, deixando apenas o suficiente pra você conseguir fazer tarefas cotidianas, como comer, andar ou limpar a bunda (pode haver falhas no processo). Beba deste líquido, e provará ser digno do poder que oferecemos."


Afasta de mim este cálice. Credo.

Estou escrevendo tudo isso na verdade meio que por frustração, porque eu nem tenho idéia de como descrever o que se passou, embora tenha a impressão de que muita gente sinta na pele a emoção vez ou outra. E agora não foi meu chefe usual, foi a presidente da maledetta Comissão de Inventário Anual de Material Permanente.


A vardomira foi até minha sala pedir uma ajuda pra elaborar o relatório. Explicou que estava tendo problemas com as planilhas do Financeiro, e já abriu com uma bomba: "Você é bom de formatação?"

What porra is "bom em formatação"? Ser bom em formatação é mais ou menos que ser bom em abrir garrafinha de água ou em tirar espinha de peixe? O que, raios, ela queria saber com essa pergunta? Bom em formatação é o pessoal que inventou o Photoshop.

Respondi do melhor jeito que pude: "Bom, eu sei usar o Excel (sorvetão na testa)."

Então ela pediu pra que eu fizesse esta parte do trabalho. Ok, estamos aqui pra isso, já dizia aquele garçom do Chapolin. Deu uma folguinha no serviço, fui até a sala dela, e aí vem a parte difícil de fazer entender: fiquei lá vinte e cinco minutos e ela não me explicou absolutamente nada do que eu precisava fazer.

Assim, não sei como aconteceu. Ela mexia e remexia no arquivo, falava consigo mesma (ou com um amigo imaginário, a esta altura não descarto nenhuma possibilidade), exclamava, fuçava um papel ali, mostrava um processo aqui, bufava, dava explicações (que pra mim, soavam como a voz da professora do Charlie Brown), apontava as assinaturas, perguntava se eu achava se tinha que colocar a firma do membro da Comissão que estava de férias, punha uma pilha de papel em cima da outra... e nada de explicar o que era pra fazer. Depois de quase meia hora de baratatontice (não consigo achar um substantivo adequado pra explicar... vardomirice, talvez), ela arrematou: "Mas então? Deu pra entender o que é pra fazer?"

Olha, eu respondi que sim. Não tinha outro jeito! E se eu respondo que não, e ela resolve repetir aquela tagarelice?? Não, não. Catei as pilhas de papel, os volumes, e saí da sala dela rapidinho, que pediu umas duzentas desculpas num espaço do minuto que eu me demorei no processo. Estava determinado a não ouvir mais a voz dela, pelo menos pelo resto do dia, mesmo sem ter a menor idéia do que era o trabalho.

Comecei a analisar o arquivo que ela demorou quase outra meia hora pra me enviar por e-mail: era uma planilha no excel com produtos e valores. Mas, depois daquela preleção, estava parecendo um cálculo de uma integral tripla. Saí no corredor pra tomar uma água, encontrei com o supervisor do Financeiro. Como ele é um cara bacana, resolvi perguntar se ele sabia o que devia fazer naquela planilha do capeta.

E ele me respondeu o seguinte: "Ah, é fácil: você só precisa configurar a página de 'retrato' pra 'paisagem', e colocar os nomes dos responsáveis no rodapé de cada página, pra conter todas as assinaturas."

¬¬

E mais meia hora de vida e paciência jogadas no lixo por conta da chefice aguda. 

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