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sábado, 31 de dezembro de 2011

Mitômana (continuação)

As pessoas do curso começaram a isolar Mirella, ao menos as que sabiam a história. Quer dizer, nem todos: alguns lhe deram o benefício da dúvida. Mas, de qualquer forma, ela sofreu significativos efeitos desta história, chegando a ser hostilizada por conta disso tudo. Claro, quem quer conviver com um criminoso?

Mas não é da Mi esta história, é da Josefa.

No fim do primeiro ano, decidimos montar a comissão de formatura, para não deixar as coisas todas para o final. Eram onze membros no total, Jô inclusa, e eu também, como tesoureiro. E nossa comissão era ativa: a partir de uma contribuição mensal de vinte reais, fazíamos eventos para multiplicar o dinheiro, de forma que a formatura saísse mais barata para todos no final. Foram cervejadas, campeonatos de truco, festas, shows, barraquinha de churrasco no Interfaculdades... praticamente uma empresa.

A única mancha na história da comissão foram justamente duzentos mangos da barraquinha de churrasco que sumiram inexplicavelmente.

À medida que o tempo passa, vários eventos estranhos vão dando lastro à história de Jô: pessoas têm suas coisas furtadas, tanto da turma quanto fora dela; cheques roubados são passados ao comércio da cidade, até mesmo um financiamento com cheques frios, em nome de Tania, outra colega de turma... tudo vai acontecendo no decorrer dos meses e anos do curso e, claro, a primeira pessoa que vem à mente dos afetados é Mirella. Mas como não há como se provar nada, ela acaba ficando meio que ostracizada pela maioria das pessoas.

Ao fim do terceiro ano, já morando com Tania, Jô engravida. E até a gravidez dela foi esquisita: a menstruação atrasou, ela foi ao médico e os exames acusaram a gravidez. No mês seguinte, ela menstrua. Novos exames, e conclui-se pelo falso-positivo do primeiro exame, pois não há indício de aborto espontâneo. Mais três meses se passam e, surpresa: ela estava realmente grávida! Grávida e menstruando. Aparentemente, o feto fixara-se num local muito próximo ao colo do útero, de modo que o organismo demorou a "perceber" que ela estava, de fato, esperando uma criança. A certeza só veio no quinto mês.

Nos últimos meses de gestação, ela tira licença e vai pra casa, em São Paulo. E um evento estranho acontece em sua ausência: Tania, estando sozinha na república, recebe a visita de um representante de uma loja de artigos para animais. Ele tem um cheque retornado referente a um saco de ração de vinte quilos que havia sido pedido ali, naquele endereço. Por sorte (do cara da loja, claro), o entregador lembrara-se da casa, e agora estavam ali a exigir a compensação do valor.

Ao analisar o cheque, mais surpresas: a folha era de Roberta, colega do curso, que tinha tido sua bolsa (com cheques e tudo) furtada há poucas semanas. E a letra que preencheu o cheque era estranhamente familiar, ainda que modificada. Desconfiada, Tania mostra uma foto de Jô ao entregador, que confirma: fora ela que pedira a ração.

Josefa!

A própria Tania tinha sido vítima na questão do financiamento! Como ela tinha recebido uma folha com a cópia dos cheques utilizados em seu caso, ela compara e percebe que a caligrafia é a mesma, e muito assemelhada à de Jô, embora disfarçada.

Num trabalho verdadeiramente detetivesco, Tania, com ajuda de algumas colegas (inclusive Roberta), começa a investigar, partindo das lojas onde Jô comprava presentes e agrados para as amigas; assim, elas conseguem rastrear e tirar cópia de algo em torno de trinta cheques, de umas seis pessoas diferentes (tendo todas sido furtadas em algum momento), distribuídos em cerca de uma dúzia de estabelecimentos pela cidade. Lojas de enfeites, chocolate, animais, tinha de tudo.

Há de se admirar a maestria com que ela jogou com todo mundo. Ela conviveu com as pessoas durante anos, era carinhosa, fazia e ouvia confidências destas pessoas, e ninguém tinha a menor idéia de que ela pudesse ser a ladra e estelionatária; e além, ela conseguiu, através de uma história muito bem plantada, um bode expiatório que desviava a atenção de todos da verdadeira perpetrante dos crimes.

Não tivesse havido uma coincidência de fatos - sua ausência mais a memória do entregador da ração - ela poderia ter saído completamente ilesa de tudo.

Não sou psiquiatra, mas tenho uma boa dose de certeza de que convivi este tempo todo com uma sociopata.

Ela de volta, as meninas investigadoras fizeram uma inquisição, e não teve como ela negar: chorou, pediu desculpas, disse que era doente, um teatro. E, no fim, com o bebê no colo, pediu, implorou para que não se acionasse a polícia, que ela não podia ser presa, tinha a filha pra cuidar. No fim (coração mole), a deixaram pra lá, apenas a obrigaram a devolver os itens roubados e os duzentos reais da formatura, que pertenciam a toda turma e dos quais não podiam dispor.

Claro, isso terminou de fragmentar uma turma já então segregada em panelinhas. Também afetou injustamente algumas pessoas, pois criou-se um clima de paranóia que se arraigou até a conclusão do curso. Desculpas foram pedidas a Mirella por alguns, outros simplesmente se envergonharam demais pra mesmo isto. Mirella finalmente contou a versão dela dos eventos do primeiro ano (até então ninguém tinha comentado com ela, exceto Francisca, que morava com ela no alojamento da faculdade) àqueles que se mantiveram amigos dela.

Eu não consigo classificar, em minha vida, uma história mais bizarra que esta.


** Como estamos falando de algumas infrações do código penal, os nomes foram trocados.

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