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sábado, 17 de dezembro de 2011

Mendigagem

Outro dia vi um vídeo de um vlogueiro que resolveu mendigar uma horinha e depois fazer umas contas. Nesta hora, ele arrecadou, sem grandes esforços, dez reais e uma quirela.

Daí ele fez as contas: oito horas de mendigagem por dia x 22 dias úteis no mês e chegou a nada maus R$ 1.760,00. Sem fazer hora extra, nem trabalhar no fim de semana, nem gastar 80% da vida dentro de uma sala de aula ou aguentar chefe mala na oreia o dia todo.

Claro, essa é uma estimativa grosseira (uma hora não é amostragem estatística decente), mas uma coisa é certa: mendigar dá mais dinheiro que ralar oito horas diárias por um salário mínimo.

E, como em todo nicho de mercado, isto tem um efeito.

No começo, via-se sujeitos maltrapilhos, sujos e esfarrapados pedindo esmolas. Quando alguém dizia a palavra "mendigo", era essa a imagem que invocávamos. Talvez mulheres em trapos com algumas crianças a tiracolo. Uns faziam ponto em algum lugar específico, enquanto outros vagavam por aí abordando as pessoas na rua. Alguns batiam na porta e pediam pão velho (embora quisessem mesmo é dinheiro). Uma deficiência física melhorava as chances de o pedinte ganhar uns trocados.

Os mais proativos sacavam de um violão ou viola, e ficava em algum lugar sentável, geralmente banco de praça, como o chapeuzinho a coletar as moedas, dedilhando nas cordas alguma moda chata do Chitãozinho & Xororó. Outros eram criativos e contavam verdadeiras odisséias para explicarem o porquê de estarem naquela situação. Uns, mais especializados, apelavam pra um Gonzaguinha no acordeon. Até faziam duplas para pedir, com direito a segunda voz!

A partir daí, a coisa começou a complicar. De balas e chicletes nos semáforos, começaram a fazer malabarismos. De início era coisa simples, três bolinhas de tênis gastas achadas em algum lixo de clube de desportos. Mas depois as coisas foram tornando-se mais e mais complexas.

Ficou famoso na internet um vídeo de um sujeito brincando com um marionete de esqueleto, coisa profi. Enquanto isso, no farol era possível ver coisas que antes eram reservadas às lonas de circo: pirofagia, equilibrismo, etc. Começaram a usar indumentária pra coisa. Outro dia vi um sujeito no sinal vestido com um mímico francês, maquilagem de palhaço, fazendo malabares com cinco bolinhas.

Aliás, algumas maquilagens foram levadas a extremos: o cara se pinta de cinza metálico e passa horas e horas parado em cima de um pedestal. Uns são até bem convincentes, você só percebe que é uma pessoa com uma cuidadosa observação.

No campo musical, também vieram inovações. Instrumentos mais e mais complexos, como saxofones, flautas transversais, violinos e violoncelos já salpicavam de Mozart e Vivaldi algumas das grandes avenidas da cidade. Começaram a levar guitarras elétricas com amplificador e pedal, solando os rocks mais familiares, para angariar a simpatia da grande maioria não-fanática por Led Zepelin e Deep Purple. Já cheguei a ver um cara com um microsystem, imitando o Michael Jackson, com direito a luvinha branca com lantejoulas, jaqueta vermelha, chapeuzinho e óculos escuros, à porta do shopping.

Hoje eu ia passando pela Paulista quando vi uma espécie de cenário: uma divisória alta, com um pano e um cartaz com os dizeres "Fernando LOKO"; não fosse isso chamativo o bastante, ainda havia no chão uma espécie de cercado ondulado salpicado de luzinhas, que piscavam no ritmo dos solos que o tal LOKO fazia na guitarra.

Como se aquilo não fosse bizarro o suficiente, do outro lado da mesma rua tinha um travesti de quase dois metros de altura, só de sutiã, com uma calça vermelho berrante cheia dos brilhos, cantando Lady Gaga com um fundo em playback (que não era daqueles tecladinhos malandros que parecem karaokê não, era algo bem elaborado até), tentando fazer uma voz grave e sensual.

É... dá pra ver que a coisa tá feia quando até pra mendigar, está-se precisando ter qualificação. Daqui a pouco vão começar a pedir currículo pra pedinte.


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