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sábado, 31 de dezembro de 2011

Mitômana (continuação)

As pessoas do curso começaram a isolar Mirella, ao menos as que sabiam a história. Quer dizer, nem todos: alguns lhe deram o benefício da dúvida. Mas, de qualquer forma, ela sofreu significativos efeitos desta história, chegando a ser hostilizada por conta disso tudo. Claro, quem quer conviver com um criminoso?

Mas não é da Mi esta história, é da Josefa.

No fim do primeiro ano, decidimos montar a comissão de formatura, para não deixar as coisas todas para o final. Eram onze membros no total, Jô inclusa, e eu também, como tesoureiro. E nossa comissão era ativa: a partir de uma contribuição mensal de vinte reais, fazíamos eventos para multiplicar o dinheiro, de forma que a formatura saísse mais barata para todos no final. Foram cervejadas, campeonatos de truco, festas, shows, barraquinha de churrasco no Interfaculdades... praticamente uma empresa.

A única mancha na história da comissão foram justamente duzentos mangos da barraquinha de churrasco que sumiram inexplicavelmente.

À medida que o tempo passa, vários eventos estranhos vão dando lastro à história de Jô: pessoas têm suas coisas furtadas, tanto da turma quanto fora dela; cheques roubados são passados ao comércio da cidade, até mesmo um financiamento com cheques frios, em nome de Tania, outra colega de turma... tudo vai acontecendo no decorrer dos meses e anos do curso e, claro, a primeira pessoa que vem à mente dos afetados é Mirella. Mas como não há como se provar nada, ela acaba ficando meio que ostracizada pela maioria das pessoas.

Ao fim do terceiro ano, já morando com Tania, Jô engravida. E até a gravidez dela foi esquisita: a menstruação atrasou, ela foi ao médico e os exames acusaram a gravidez. No mês seguinte, ela menstrua. Novos exames, e conclui-se pelo falso-positivo do primeiro exame, pois não há indício de aborto espontâneo. Mais três meses se passam e, surpresa: ela estava realmente grávida! Grávida e menstruando. Aparentemente, o feto fixara-se num local muito próximo ao colo do útero, de modo que o organismo demorou a "perceber" que ela estava, de fato, esperando uma criança. A certeza só veio no quinto mês.

Nos últimos meses de gestação, ela tira licença e vai pra casa, em São Paulo. E um evento estranho acontece em sua ausência: Tania, estando sozinha na república, recebe a visita de um representante de uma loja de artigos para animais. Ele tem um cheque retornado referente a um saco de ração de vinte quilos que havia sido pedido ali, naquele endereço. Por sorte (do cara da loja, claro), o entregador lembrara-se da casa, e agora estavam ali a exigir a compensação do valor.

Ao analisar o cheque, mais surpresas: a folha era de Roberta, colega do curso, que tinha tido sua bolsa (com cheques e tudo) furtada há poucas semanas. E a letra que preencheu o cheque era estranhamente familiar, ainda que modificada. Desconfiada, Tania mostra uma foto de Jô ao entregador, que confirma: fora ela que pedira a ração.

Josefa!

A própria Tania tinha sido vítima na questão do financiamento! Como ela tinha recebido uma folha com a cópia dos cheques utilizados em seu caso, ela compara e percebe que a caligrafia é a mesma, e muito assemelhada à de Jô, embora disfarçada.

Num trabalho verdadeiramente detetivesco, Tania, com ajuda de algumas colegas (inclusive Roberta), começa a investigar, partindo das lojas onde Jô comprava presentes e agrados para as amigas; assim, elas conseguem rastrear e tirar cópia de algo em torno de trinta cheques, de umas seis pessoas diferentes (tendo todas sido furtadas em algum momento), distribuídos em cerca de uma dúzia de estabelecimentos pela cidade. Lojas de enfeites, chocolate, animais, tinha de tudo.

Há de se admirar a maestria com que ela jogou com todo mundo. Ela conviveu com as pessoas durante anos, era carinhosa, fazia e ouvia confidências destas pessoas, e ninguém tinha a menor idéia de que ela pudesse ser a ladra e estelionatária; e além, ela conseguiu, através de uma história muito bem plantada, um bode expiatório que desviava a atenção de todos da verdadeira perpetrante dos crimes.

Não tivesse havido uma coincidência de fatos - sua ausência mais a memória do entregador da ração - ela poderia ter saído completamente ilesa de tudo.

Não sou psiquiatra, mas tenho uma boa dose de certeza de que convivi este tempo todo com uma sociopata.

Ela de volta, as meninas investigadoras fizeram uma inquisição, e não teve como ela negar: chorou, pediu desculpas, disse que era doente, um teatro. E, no fim, com o bebê no colo, pediu, implorou para que não se acionasse a polícia, que ela não podia ser presa, tinha a filha pra cuidar. No fim (coração mole), a deixaram pra lá, apenas a obrigaram a devolver os itens roubados e os duzentos reais da formatura, que pertenciam a toda turma e dos quais não podiam dispor.

Claro, isso terminou de fragmentar uma turma já então segregada em panelinhas. Também afetou injustamente algumas pessoas, pois criou-se um clima de paranóia que se arraigou até a conclusão do curso. Desculpas foram pedidas a Mirella por alguns, outros simplesmente se envergonharam demais pra mesmo isto. Mirella finalmente contou a versão dela dos eventos do primeiro ano (até então ninguém tinha comentado com ela, exceto Francisca, que morava com ela no alojamento da faculdade) àqueles que se mantiveram amigos dela.

Eu não consigo classificar, em minha vida, uma história mais bizarra que esta.


** Como estamos falando de algumas infrações do código penal, os nomes foram trocados.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mitômana

Já conheceu gente com mitomania?

E em quebra de paradigma, já ouviu falar?

Antes de mais nada, quero dizer que uso o termo "mitomania" de forma popularesca, pra designar aquelas pessoas que contam mentiras repetidamente. Não sei se elas têm mesmo a condição psiquiátrica indicada pela palavra. Até porque, como já disse em posts anteriores, sou contra essa tendência atual de colocar toda a responsabilidade no determinismo biológico.

O cara é um assassino? Ah, mas ele tem hipotireodismo originado de um microtumor nas suprarrenais que ocasionam injeções aleatórias de adrenalina, que por sua vez causam episódios de irritabilidade que podem resultar em explosões de violência.

Como diria o Fábio Rabin: "Vai dá o cu, mano. Só meia hora." Quem é doente tem que se tratar, e quem é ameaça à sociedade tem que ser excluído dela.

Isto posto, voltemos à conversa: quem mora em cidade pequena, certeza que conhece um mentiroso. Eu mesmo conheço uma pessoa que conta histórias mirabolantes, crente que tá todo mundo acreditando nela. Ela inventa viagens, relações próximas com celebridades, e mesmo diagnósticos médicos.

Mas esta merece um post à parte.

A história a que eu me refiro aconteceu na faculdade. E durou quase até o final dela, embora só nos tenhamos dado conta então.

Josefa, a Jô, era uma colega muito legal da minha turma: bonita, chamava bastante a atenção masculina (embora as roupas que ela usasse a ajudassem neste intento), meio cheinha, inteligente, divertida e engraçada. Tinha um bom dom da palavra, sempre inventava bordões e expressões que, no fim das contas, todo mundo acabava usando. Era uma companhia muito agradável, realmente.

Que tinha alguma coisa estranha com ela, todo mundo achava. As meninas argumentavam que as roupas que ela usava indicavam que ela era doida - ela chegou a ir à faculdade de camisolinha curta transparente! Eu não reclamava, claro, nem nenhum dos rapazes, mas as meninas achavam aquilo muito estranho. Outra mania maluca era a de animais de estimação: durante o tempo da faculdade ela teve três cachorros (sendo que um deles uma imensa fêmea preta da raça fila), três gatos, um pato, um pintinho, um aquário com caramujos, um ranário, outro aquário com peixinhos, dois hamsters e dois chinchilas. E uma boa parte destes bichos chegou a conviver ao mesmo tempo numa quitinete minúscula.

Mas ela tinha uma personalidade cativante, e (talvez até por isso) foi a manipuladora mais hábil que eu já conheci. Sim, pois os pretensos manipuladores (como meu chefe) costumam pavonear de forma a deixarem suas vítimas perceberem suas intenções, o que destrói a eficácia da tentativa. O bom manipulador é aquele que não deixa a pessoa perceber que ela está fazendo exatamente o que ele quer.

Outra das características marcantes da Jô eram suas histórias mirabolantes. Mas ela cuidava que elas ficassem no limiar da dúvida, não inacreditável a ponto de causar o descrédito geral, mas o suficiente pra prender a atenção do ouvinte. Uma delas disse respeito a uma outra colega de turma, a Mirella: no início da faculdade, os estudantes, na sua maioria de fora da cidade, ficavam em moradias provisórias; com o passar do primeiro mês, as pessoas iam se conhecendo e formando repúblicas. Assim foi com Jô e Mirella: foram morar juntas.

Passado pouco menos de ano, Mirella se muda da casa de forma repentina, e a amizade esfria. A alguns amigos mais próximos (a faculdade inteira), Josefa explica: Mirella tinha roubado diversos itens dela, das outras colegas de república (que eram de outro curso) e mesmo de familiares que estavam visitando a casa!

Foi um choque! Claro, descobrir que uma colega de turma é uma ladra é um fato assustador. Vai saber o passado da menina, vai saber o tipo de coisa que ela já pudesse ter feito? Na idéia do cidadão comum, quem comete um crime contumazmente, é capaz de cometer qualquer um.

Continua...

** Como estamos falando de algumas infrações do código penal, os nomes foram trocados.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Kuat

Hoje eu vi uma coisa inédita: na mesa do lado no restaurante, na hora do almoço, um grupo de seis pessoas pediu um Kuat.

Não tinha, a mulher voltou e perguntou se poderia ser Antárctica.

Realmente, São Paulo é uma cidade de bizarrices: tem de tudo por aqui.

P.S.: e não, continua não podendo ser Pepsi. Nem Kuat. E Fanta Uva não tenho coragem nem de jogar pra cachorro de rua.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Jornalismozinho

Minha mente funciona de uma maneira bem tortuosa. Só pra ilustrar com um exemplo: um dia, quando ainda morava em São Carlos, estava voltando pra casa quando pensei: "Puxa... aquela trilha sonora do O Corcunda de Notre Dame é boa mesmo, né." Chegando em casa, baixei a trilha, muito legal. Depois comprei o filme (na época, em cassete ainda) e fiquei ainda mais fã da música, agora inserida no contexto.

A questão é que eu tinha ouvido esta trilha uma única vez, havia uns três anos, apresentada pelo Anderson, lá em Itaú.

Pois hoje me ocorreu algo semelhante. Vinha eu divagando como sempre no caminho de casa quando me ocorreu uma coisa: como jornalismo de internet é mequetrefe.

Como é de conhecimento amplo, há uns meses o comediante Rafinha Bastos foi execrado pelos meios de comunicação por ter feito piada com a neta do Francisco, Wanessa Camargo, a mulher de vidro. Só não uso a palavra "palhaçada" porque os circenses são pra ser engraçados.

Debates sobre liberdade de expressão e humorfobia à parte, o que eu pensei de curioso dessa história foi a respeito desta reportagem.

Para você que está com preguiça de clicar no link, vou resumir a situação: no meio da polêmica do "como ela e o bebê", a Folha foi uma das que mais colocou lenha na fogueira. Participou ativamente da queima de bruxas, este que é um jornal tão ético (pfff). E, durante toda o perrengue, Rafinha em nenhum momento parou de fazer o que ele faz, de si mesmo ou dos outros: piada. A cada manifestação do humorista vinha uma porrada da mídia, Folha inclusa.

Pois bem: numa das últimas reportagens, a Folha o procura para pedir explicações uma piada que ele fizera em seu show particular (os caras tavam levando pro pessoal), sobre Nextel, traficantes e Fábio Assunção. E ele deu a seguinte resposta ao contato da reporter por e-mail: "Chupa o meu grosso e vascularizado cacete".

Em suma: ele deu a resposta que todos nós gostaríamos de ter dado, estivéssemos no lugar dele. Mas a questão aqui é o profissionalismo do jornalismo envolvido: eles achavam mesmo que, dentro do contexto, o Rafinha daria uma explicação da piada? E pra Folha?? Olha, é uma inocência do tipo que não combina com sensacionalismo. Ou será que eles pensavam ser tão poderosos que estavam em posição de exigir algum tipo de satisfação?

Eu até cheguei a pensar que eles estavam tentando manter a polêmica em andamento o maior tempo possível mas, lendo bem a matéria, ela tem um tom oscilando entre estar puto por ter sido desprezado e sem-graça por ter levado um "TOF!".

E a pior parte é: como eu conheço a resposta do Rafinha? Simples. A própria Folha o divulgou. Pois é, eles procuraram o cara, ele mandou um "chupa" e eles publicaram!

Eu não sei quanto a vocês, mas eu entendo isso como um tabloidismo que nunca antes havia sido atingido, nem pelo mais infame dos folhetins do Notícias Populares. Seria mais ou menos como se eu fosse um diretor de uma grande empresa e, tendo ligado pra um candidato pra dizer que a vaga é dele ouvisse como resposta, um sonoro "enfia a vaga no rabo". E, em vez de ficar puto em silêncio, publicasse a resposta num memorando dirigido a toda a empresa no dia seguinte.

Galhofa é pouco pra definir como esse assunto seria tratado pelo resto da empresa.

Não sei se foi falta de amor-próprio, de noção do ridículo ou se é gana por audiência a qualquer custo, tentando pegar carona na indignação Tang que eles mesmos tinham ajudado a criar, mas o fato é que achei de um chinfrismo acachapante.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Podcast - Conan

Saiu o terceiro podcast da Turma do Quiabo!

O tema desta vez é Conan, o Cimério, o bárbaro que instituiu o monoteísmo (matando todos os outros deuses). Ou melhor, os filmes dele.

Tá entendiado e não se incomodaria em ouvir um monte de nego à toa falando potoca? Acessa lá.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Bucaina, o filho de Deus.

Fazendo tiras inspiradas na minha época de adolescência, acabo lembrando de passagens interessantes.

Fiz meu ensino médio no Colégio Tiradentes da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais. Ou CTPMMG. Sério o lance lá. Pelo menos era. Às sextas, saíamos pra marchar com os pelotões da PM, hastear bandeira e cantar os hinos Nacional, da Bandeira e do Colégio.

Isso mesmo, o colégio tinha um hino. Não lembro a letra toda, mas o refrão era assim:



"Salve, pois, oh colégio bendito
Sal do bem, semeador do que é puro
Em seu rumo que aponta o infinito
Nasce a luz que ilumina o futuro!"

Um must.

Boa parte dos alunos era filho ou parente de militar em algum grau. Quando sobravam vagas, eles abriam pra população civil através de um vestibulinho. Era o meu caso.

Apesar da qualidade do ensino ser alta (mais ainda se considerarmos que era uma escola pública), e da disciplina ser boa, os alunos que entravam por vestibulinho costumavam ser uns perturbados. Bons alunos, sim. Mas perturbados.

Eu lembrei hoje de uma passagem de um deles, o Marcelinho. Vulgo Wolverine. Vulgo lobisomem. Vulgo Bucaina.

Este último exige uma explicação: quando ele ficava estressado, ele fazia um movimento esquisito com a boca; como na época o povo da turma tinha o hábito de trocar as palavras por outras cujo início fosse a palavra desejada, ele pegou a alcunha de bocaina.

Bucaina é bocaina em mineirês. E não me pergunte o que é bocaina, que eu não sei.

Marcelo tinha uns lances estranhos. Ele lia sobre filosofia e tinha uns discursos cabeça, ainda mais pra época. E era absolutamente ateu. Não sei, mas concluir pelo ateísmo já adolescente, tendo criação religiosa, soa estranho pra mim.

Pois bem. Em certa ocasião fizemos um festa divertidíssima no sítio do então professor de Biologia. A propriedadezinha era tão top que nem energia elétrica tinha. Ficou bom durante o dia, mas ali pela hora do almoço o povo tava tão bêbado que nem se importava em entornar cerveja quente. Com o nível de álcool nas nuvens e o bom-senso entorpecido pela absoluta falta de entretenimento, a pegação rolou solta. Só não se deram bem os grandes peg-nings da sala: eu, Thiaguinho e, claro, Marcelinho.

Uma das meninas da turma já era então bem avançadinha pra idade, e resolveu ir um pouco além do beija-esfrega-passa-a-mão-na-bunda. Eles foram transar. Eles quem? Ela e mais quatro caras, vamos chamá-los assim: Shyriu, Hyoga, Shun (que não era bicha como o original) e... Bucaina. Porém, as condições da rocinha eram por demais precárias, e nem porta nem janela possuíam tramela ou gelosia. E, como eu havia dito antes, Bucs era como nós, um peg-ning. Já lá dentro, roupas sendo tiradas e partes sendo chupadas, é que Bucaina descobriu o que tinha ido fazer ali: eles tinham conseguido travar a porta com um ferro, mas precisavam de alguém pra segurar a janela.

Pobre Bucs.

Ali, vendo aquela agarração, aquela coisa toda, ele não tinha sangue de barata. E eis que ele solta uma pérola  com a qual seria zuado ainda mais uns três anos:

"Pô, deixa eu também. Eu também sou filho de Deus."

Pois é. Lembra-me a expressão que o Douglas usa muito quando descreve situações periclitantes: "Nessa hora eu vi ateu gritando 'Eu creio, eu creio!!"

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Biscoitão

Biscoitão era um maluco que mendigava perto do colégio. Ele carregava uma bengala e, se alguém o chamasse por este apelido, começava batê-la em si mesmo.

O meu, na verdade, era Biscoito, o filho do Biscoitão.

Visite o blog da Turma do Quiabo.

Meu cabelo não se mexe nem com toda a telecinésia da Jean Grey incorporando a Fênix.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Celular ao volante

Os motoristas paulistanos estão sempre inventando novos jeitos de aumentar a periculosidade do tranquilo trânsito da cidade.

Celular ao volante? Ha. Este assunto, origem de tantos tweets indignados, posts revoltados em fóruns, reportagens de alerta e demonstrações de fúria e inconformismo no Facebook é assunto do passado! Até o pessoal da CET já pratica!

Sempre inovando, a moda agora é trocar mensagens de SMS ao volante. Conversar olhando pra pista sem prestar atenção é ficha perto da emoção que é dirigir sem sequer ver o entorno!

O próximo estágio deste esporte será o desenvolvimento de óculos digitais com fones, que vão jogar as mensagens diretamente na retina do piloto, enquanto os fones tocam funk no último volume, pra isolar qualquer chance de ele ouvir uma buzina ou uma imprecação contra sua progenitora.

Mais arriscado que isso, só dirigir dormindo, mas nesta modalidade o motorista não aproveita a adrenalina do passeio.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mendigagem

Outro dia vi um vídeo de um vlogueiro que resolveu mendigar uma horinha e depois fazer umas contas. Nesta hora, ele arrecadou, sem grandes esforços, dez reais e uma quirela.

Daí ele fez as contas: oito horas de mendigagem por dia x 22 dias úteis no mês e chegou a nada maus R$ 1.760,00. Sem fazer hora extra, nem trabalhar no fim de semana, nem gastar 80% da vida dentro de uma sala de aula ou aguentar chefe mala na oreia o dia todo.

Claro, essa é uma estimativa grosseira (uma hora não é amostragem estatística decente), mas uma coisa é certa: mendigar dá mais dinheiro que ralar oito horas diárias por um salário mínimo.

E, como em todo nicho de mercado, isto tem um efeito.

No começo, via-se sujeitos maltrapilhos, sujos e esfarrapados pedindo esmolas. Quando alguém dizia a palavra "mendigo", era essa a imagem que invocávamos. Talvez mulheres em trapos com algumas crianças a tiracolo. Uns faziam ponto em algum lugar específico, enquanto outros vagavam por aí abordando as pessoas na rua. Alguns batiam na porta e pediam pão velho (embora quisessem mesmo é dinheiro). Uma deficiência física melhorava as chances de o pedinte ganhar uns trocados.

Os mais proativos sacavam de um violão ou viola, e ficava em algum lugar sentável, geralmente banco de praça, como o chapeuzinho a coletar as moedas, dedilhando nas cordas alguma moda chata do Chitãozinho & Xororó. Outros eram criativos e contavam verdadeiras odisséias para explicarem o porquê de estarem naquela situação. Uns, mais especializados, apelavam pra um Gonzaguinha no acordeon. Até faziam duplas para pedir, com direito a segunda voz!

A partir daí, a coisa começou a complicar. De balas e chicletes nos semáforos, começaram a fazer malabarismos. De início era coisa simples, três bolinhas de tênis gastas achadas em algum lixo de clube de desportos. Mas depois as coisas foram tornando-se mais e mais complexas.

Ficou famoso na internet um vídeo de um sujeito brincando com um marionete de esqueleto, coisa profi. Enquanto isso, no farol era possível ver coisas que antes eram reservadas às lonas de circo: pirofagia, equilibrismo, etc. Começaram a usar indumentária pra coisa. Outro dia vi um sujeito no sinal vestido com um mímico francês, maquilagem de palhaço, fazendo malabares com cinco bolinhas.

Aliás, algumas maquilagens foram levadas a extremos: o cara se pinta de cinza metálico e passa horas e horas parado em cima de um pedestal. Uns são até bem convincentes, você só percebe que é uma pessoa com uma cuidadosa observação.

No campo musical, também vieram inovações. Instrumentos mais e mais complexos, como saxofones, flautas transversais, violinos e violoncelos já salpicavam de Mozart e Vivaldi algumas das grandes avenidas da cidade. Começaram a levar guitarras elétricas com amplificador e pedal, solando os rocks mais familiares, para angariar a simpatia da grande maioria não-fanática por Led Zepelin e Deep Purple. Já cheguei a ver um cara com um microsystem, imitando o Michael Jackson, com direito a luvinha branca com lantejoulas, jaqueta vermelha, chapeuzinho e óculos escuros, à porta do shopping.

Hoje eu ia passando pela Paulista quando vi uma espécie de cenário: uma divisória alta, com um pano e um cartaz com os dizeres "Fernando LOKO"; não fosse isso chamativo o bastante, ainda havia no chão uma espécie de cercado ondulado salpicado de luzinhas, que piscavam no ritmo dos solos que o tal LOKO fazia na guitarra.

Como se aquilo não fosse bizarro o suficiente, do outro lado da mesma rua tinha um travesti de quase dois metros de altura, só de sutiã, com uma calça vermelho berrante cheia dos brilhos, cantando Lady Gaga com um fundo em playback (que não era daqueles tecladinhos malandros que parecem karaokê não, era algo bem elaborado até), tentando fazer uma voz grave e sensual.

É... dá pra ver que a coisa tá feia quando até pra mendigar, está-se precisando ter qualificação. Daqui a pouco vão começar a pedir currículo pra pedinte.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Trigo

Ontem foi dia de folga, feriado local no meio da semana.

Estou em casa no meio da tarde, toca o telefone, DDD de outro estado. Atendo: era uma pesquisa de opinião a respeito do consumo de trigo em minha casa!

Surreal.

E a moça ainda queria saber se eu estaria em casa no mesmo horário na semana seguinte. Pô, chamou de vagabundo na maior. Disse que não, que eu trabalho naquele horário, como a maioria das pessoas que não são prostitutos, guardas noturnos ou lixeiros paulistanos (que passam às duas da madruga tocando uma sirene do inferno num volume desgraçado).

Se eu tivesse cinco mil chances de tentar adivinhar o assunto do telefonema, eu teria errado todas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Turma do Quiabo: a Gênese


Dando seguimento a um projeto há muito protelado, a partir de hoje estarei publicando as tirinhas da Turma do Quiabo no blog de mesmo nome.


Todas as tirinhas de lá serão também publicadas aqui, além de um link para o referido site, que fala de nerdices e ranzizices de um tempo em que não era chique ser geek. Podcasts, textos, quadrinhos e muito mais!


Além disso, temos um outro projeto de tirinhas próprias do blog Vardomirices. Aguardem (vocês dois!).




Seu Rubinho é um fanfarrão. Deve ter dormido com o Baé...


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Vardomirinhos

Algumas pessoas manifestam o vardomirismo desde a mais tenra idade. E quem tem criança na família sabe: do nada pode vir uma pérola.

> Pessoal da família tem mania de absorver termos usados pelas crianças quando estão aprendendo a falar. Por exemplo, "osco", que minha prima Marina usava para se referir a óculos. Um dia, ela chegou com um par de óculos de sol gigante, cabiam duas cabeças dela. Caí na bobeira de elogiar: "Nossa, mas que 'osco' mais bonito!!...". Ao que ela me corrigiu: "Ó-Côs!!"


> Ciúme corre é nas artérias e veias da família. Ainda antes de meu primo Marcelinho completar dois anos, minha irmã levou seu então namorado em casa. Marcelo não se fez de rogado: fechou a cara no semblante mais rabugento que conseguiu, e ficou encarando o rapaz. Quando minha mãe perguntou o que ele tinha, ele respondeu: "Tô bravo. Tô muito bravo."

> Não subestime a capacidade de raciocínio das crianças. Em certa ocasião, Marcelo ouvira  minha mãe dizer que ela colocava sal na comida pro papá ficar gostoso. Num outro dia, ao provar de um suco de maracujá pra lá de azedo, ele sugeriu: "Tá uim. Põe tal."

> André, o filho mais novo da vizinha, afilhado dos meus pais, entrou em casa na hora da comida. Minha mãe o convidou a comer:

 - Ah, tem 'armoço' aí?
 - Não é 'armoço' que se fala, André.
 - Não? Então o que é? Janta?

> Pipa, meu primo Plínio, era conhecido por ser um pouquinho cabeça-dura. Só um pouquinho. Quando criança, ele era bastante ágil, e costumava subir em muros e árvores. Um dia ele escalou a parede vazada da garagem da casa da vovó. Um dos tios, não lembro qual, pediu pra ele descer:
 
 - Desce daí, Plínio, você vai acabar se machucando.
 - E num desço.
 - Desce Plínio, vem cá...
 - E num desço...
 - Plínio! vou ter que contar pro seu pai!
 - E num desço...
 - Aff, como você é teimoso! Tá bom então, fica aí!
 - E num fico...

E desceu do muro...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Vivo

A prefeitura de São Paulo resolveu fazer propaganda subliminar da operadora de celular Vivo:


Isso é inadmissível para a Administração. Mas, como não dá pra desfazer propaganda, o ideal seria a prefeitura, agora, bolar outros cartazes e banners para deixar as coisas equilibradas.


Aqui vão algumas idéias de layout:






 




Tiro no pé

Muitas vezes eu ouço notícias bizarras, e custo a imaginar a circunstância em que os fatos ocorreram.

A expressão "tiro no pé" é muito usada pra decisões ou atitudes em que o maior prejudicado é o próprio impetrante das mesmas.

Pois uma segurança lá do serviço renovou o conceito da expressão: ela literalmente deu um tiro no pé! Literal e figurativa, claro, porque, depois desta façanha, ela vai direto do hospital pro RH da terceirizada.

E sempre que eu ouço esse tipo de coisa eu me assombro: como, catso, ela conseguiu isso?