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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Legião

Eu sou um músico frustrado.

Sério. Se, de todas as profissões possíveis, me fosse permitido escolher a que eu quisesse, seria compositor de músicas infantis. Eu nunca tive aulas de música, propriamente ditas, mas já fiz parte de um (excelente) coro por cinco anos, tenho um programa em casa que me ajuda com as partituras, toco um violão bem mais-ou-menos... Enfim, eu me interesso pela área, dentro do possível. Uma pena que me falte tanto talento quanto tempo para compensá-lo com esforço.

Neste meio, eu tenho três ídolos, em ordem temporal de descoberta: Renato Russo, Chico Buarque e Oswaldo Montenegro.

A Legião Urbana eu descobri na adolescência, foi a primeira banda com a qual gravei uma fita cassete (é... são idos estes tempos há muito) inteira. Era fascinado com Faroeste Caboclo, Pais e Filhos e as outras carne-de-vaca, mas também gostava de canções bem menos conhecidas, como A Dança, Maurício e Vinte e Nove.

Um parêntese aqui: eu tenho dificuldade em classificar música. Na época, eu era bem típico adolescente, abominava sertaneja, desprezava pagode, etc. Mais velho, cheguei à conclusão de que as classes de música são tão artificiais quanto as classes de seres vivos. Assim, eu não digo “não gosto de sertanejo” ou “gosto de rock”. Também não falo “não gosto de Zezé di Camargo” ou “gosto de Nando Reis”. Eu gosto ou não gosto de cada música individualmente.

E esta é a razão de estes três serem meus ídolos musicais. Ambos são compositores cuja obra me agrada por completo. Ou algo bem próximo disto.

Isto posto, Renato Russo veio numa época meio rebelde e deprimente, uma época de transformação, que sempre é um processo de ruptura. Neste sentido, as letras com teor de revolta contra o mundo e de tristeza ante a diferença entre o que é e o que deveria ser caíram como uma luva para a época.

Seu Francisco eu já descobri na faculdade. Foi a melhor época da minha vida, pois representou minha saída do beco que era Itaú para a vitrine que é a universidade. Lá, eu tinha uma mentalidade de absorver o máximo que eu pudesse do que a instituição tinha a me oferecer, e isto incluía as diversas atividades culturais paralelas. Assisti a shows e artistas de um certo naipe, dentro de um contexto o qual nunca mais encontrei outro igual. Neste tempo, as letras do Chico Buarque de Hollanda também se encaixaram bem: humor sutil, rimas e construções impecáveis, verdadeiras esculturas ortográficas que falam sobre assuntos e leves e assuntos sérios, sempre contando com a mente aguçada do ouvinte. Chico é, sem sombra de dúvida, o maior letrista que o Brasil já conheceu.

Oswaldo Montenegro, eu sempre gostei, mas o descobri mesmo mais recentemente. Enquanto Chico é o maior poeta da música, Oswaldo é o artista mais completo do país: excelente instrumentista, arranjador, tem uma voz imponente e colorida, uma pusta presença de palco. Não bastasse isso, compõe tanto letras quanto músicas fantásticas,  como também espetáculos teatrais geniais (sempre com música), como os consagrados pela Oficina dos Menestréis (dirigida, aliás, pelo irmão dele, Deto Montenegro): Noturno, O Vale Encantado, A Dança dos Signos, Lendas e Tribos, Os Filhos do Brasil, etc. Sempre que ele vem a São Paulo, procuro ir aos shows. (Até brinco que ele me vê tanto na primeira fila que, algum dia, vai acabar me cumprimentando. rs)  São sempre únicos. Oswaldo é o cara.

Teve uma fase que eu fiquei meio de bode com o Renato Russo. Caralho, Pintinho Amarelinho? Vai à merda amarelinha! Claro, eu entendo que ele foi vítima da síndrome de Adriane Galisteu que acometeu os membros restantes da banda. Afinal, o cara morreu, a banda morreu, porque ele era a banda. Tanto que não se ouve mais falar dos outros integrantes. Mas, mesmo assim, aquela música “Ela passou do meu lado/'Oi amor', eu lhe falei/...” é uma MERDA, com letras maiúsculas. Além disso, hoje eu preconizo uma visão positiva das coisas, e o negativismo dele pareceu, em muitas vezes, uma espécie de “xiliquinho”. Não tira a validade da obra, veja bem, mas me pareceu meio queixoso demais em algumas ocasiões.

Depois, porém, eu cheguei à conclusão de que esses caras, estes gênios artísticos, experimentam a realidade de uma forma diferente da nossa, reles mortais. Analisando menos a psicologia e mais a arte, dá pra entender alguns exageros poéticos.

Passados mais de quinze anos desde meu primeiro CD da Legião, não consigo dizer, hoje, qual deles é O meu ídolo. Mas uma coisa eu penso do Renato: ele entendia.


P.S.: pra quem não entendeu: síndrome de Adriane Galisteu é aquela doença que acomete pessoas medíocres que se tornam conhecidas por estarem á sombra de alguém verdadeiramente grandioso. Quando o seu parasitado morre, o galistaico (como é denominada a pessoa portadora da síndrome) fica com febre de fama, aproveitando ao máximo a projeção causada pelo óbito, promovendo-se à custa da falta que faz o ídolo de tantas pessoas.

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