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sábado, 29 de outubro de 2011

Eleições

A primeira vez a gente não esquece. Principalmente quando ela vira matéria no Jornal Nacional.

Como bom cidadão que sou, só tirei meu título de eleitor aos 18 anos, porque fui obrigado.

(É, eu sei: "blá, blá, blá, votar é um direito e um dever de cidadania, blá, blá, blá...". Bom, foda-se o politicamente correto.)

À época, eu estava na faculdade e residia na cidade de São Carlos. E como bom azarado, cuja saída ao ar livre as chuvas sempre ficam esperando, obviamente que já fui "convidado" a ser mesário na primeira vez que fui votar. Entre aspas, claro, porque é facultativo, mas você que não apareça no dia pra você ver!

Você já foi mesário? Então, não é só aparecer lá no dia da eleição pra dar uma de cara-crachá (ou melhor, cara-documento de identidade com foto + título de eleitor). Um mês antes da birosca é preciso comparecer a uns dois ou três dias de reunião, onde te passam as importantes informações para a execução da complexa tarefa de operar uma urna eletrônica. Hein? Você tinha algo importante pra fazer no dia? Azar seu.

Depois dos exaustivos estudos necessários à completação (olha, reclama com o Michaelis do UOL, ok? Eu queria usar compleção) de tão difícil tarefa, chega o dia. Se é possível ter sorte dentro do azar, pelo menos eu trabalharia na mesma zona em que votava. Logicamente, nada funciona do jeito que treinaram você há um mês. Na hora, é o presidente da seção (tem gente que se orgulha de ser presidente de mesário) que organiza tudo, e cada lugar funúncia diferente do outro.

A experiência não é tão ruim, na verdade. Você até aprende algumas coisas interessantes do ponto de vista filosófico. Por exemplo: a paciência. Experimente, se puder: ajudar uma velhinha a usar a urna eletrônica sem entrar na cabine, uma vez que o voto é secreto, e sem cometer nenhum tipo de agressão (depois de uns quinze minutos, a velhinha conseguiu terminar a votação. Quando eu falei pra ela que já tinha terminado, ela retrucou: "Tá, agora eu quero votar pra governador.")

O lance com a velhinha, no entanto, não aconteceu neste dia, foi em outra ocasião. Na primeira vez que fui mesário a eleição era para a prefeitura. E o evento estranho aconteceu no fim do dia.

Eu tinha ficado pela primeira vez com uma moça no dia anterior, e tínhamos combinado de nos encontrar no domingo, depois da votação. Voltei pra casa, si arrumei, e segui pra casa dela. A pé, claro, estudante típico de Biologia. No caminho, uma estranha movimentação de viaturas de polícia com giroflex ligado. Andando pela avenida São Carlos, uma visão bizarra: um posto de gasolina estava todo detonado. As vidraças da loja de conveniência quebradas, as bombas tortas, um monte de mercadoria espalhada pelo chão... tinha uma concentração de viaturas ali mas, como já citei em outro post, minha prudência é muuuuuito maior que minha curiosidade, então segui meu caminho.

Chegando na casa da moça, ela faz uma cara de alívio. Estranho toda aquela história, ela me explica o que se passava: o candidato que estava em quarto lugar nas pesquisas, o tal Rubinho, tinha feito um acordo com seus cabos eleitorais: cada um receberia R$ 100,00 pelo dia de trabalho na boca-de-urna. Passada a eleição, e sendo Sanca City uma cidade pequena, a contagem dos votos foi rápida: como esperado, ele ficou em quarto. Cobrado pelos comparsas (é, fi, boca-de-urna é crime), ele se recusou a pagar, alegando que o combinado eram cem mangos SE ele ganhasse a eleição.

Obviamente os malacos não aceitaram. Os cerca de duzentos cabos eleitorais se enfureceram e partiram pra violência: destruíram e saquearam o posto de gasolina que pertencia ao candidato derrotado. Não satisfeitos, saíram em turba para destruírem os outros postos da rede. Um total de três postos de gasolinas foram completamente devassados, computadores destruídos, uma bagunça.

No dia seguinte, em meio a uma coletânea de notícias da eleição, tá lá Fátima Bernardes e William Bonner anunciando a ocorrência em uma cidade do interior de São Paulo.

Uns anos depois, instaurou-se um processo que fazia referência a este dia: aparentemente, Rubinho era um sonegador contumaz de impostos, e o Ministério Público suspeitava que toda a ação destrutiva fora, na verdade, planejada, com o objetivo de apagar arquivos e documentos que poderiam comprometer o ex-prefeito (é... o cara já tinha sido prefeito de São Carlos há umas eras). A última notícia que tive a respeito foi que o filho dele (que era deputado estadual) tinha sido preso, e ele estava foragido.

Essa nossa classe política não decepciona.

E, de toda essa zona, a lição que ficou pra mim foi: não precisa levar o título de eleitor pra votar. Basta comparecer com a identidade, que o vardomiro do mesário vai ser obrigado a encontrar o seu número no meio de dois cadernões enormes que têm o nome de todo mundo...

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